segunda-feira, 14 de julho de 2014

Novos descobridores

A Copa do Mundo é o maior espetáculo da Terra. Por isso, você, leitor, lerá duas postagens sobre o torneio que chegou ao fim após 31 dias de um futebol jogado em altíssimo nivel e há muito tempo não visto nos mundiais. Esta abordará uma visão geral da Copa e da conquista alemã e outra analisará a participação melancólica da seleção brasileira em mais uma empreitada mal-sucedida de conquistar o hexacampeonato.

                                                       Os dois campeões

    O Maracanã foi palco de uma grande final entre Alemanha e Argentina na noite de ontem. De um lado, os comandados de Joachim Löw, cientes do favoritismo e da qualidade do time, mas que sabiam da necessidade do título para a confirmação das expectativas criadas em torno deles. A Argentina, por sua vez, impulsionada pela rivaliade acirrada entre os dois países nos mundiais anteriores confiava e dependia de Lionel Messi, que não decepcionou, porém não encontrou  forças para lutar contra 11 craques. A Alemanha redescobre a América ao ser o primeiro país europeu a vencer uma Copa disputada no continente.
     A presença carismática e o engajamento social do time alemão no Brasil já foram suficientes para que eles merecessem o tetracampeonato após 24 anos de jejum. A 20ª Copa do Mundo da FIFA foi especial não só pela conquista mas pelo fato de os 23 convocados aprenderem e evoluírem como seres-humanos e cidadãos. A interação com comunidades indígenas locias, a doação de cerca de R$ 30.000,00 para a compra de uma ambulância e as construções de uma escola e do próprio resort onde ficaram hospedados no litoral baiano - o que gerará empregos à população local - serão lembranças marcantes e permanentes da passagem campeã  da Alemanha por Santa Cruz Cabrália.
     Além disso, a preparação de longo prazo adotada pela administração do futebol alemão o credenciou para a consagração no Brasil, que já poderia ter acontecido se a Alemanha não fosse eliminada nas semifinais em 2006 e 2010. A formação de jogadores e técnicos bem como  o gerenciamento do campeonato nacional são de excelente qualidade, propiciando, assim, o sucesso de times como o Bayern de Munique e de craques em todas as posições. De Manuel Neuer, eleito o melhor goleiro desta Copa, a Klose, centroavante e novo detentor do recorde de maior artilheiro das Copas do Mundo, com 16 gols marcados, além de Mario Götze, primeiro reserva a decidir uma final na história da competição: essa é a nova cara da Alemanha, exemplo de que a coletividade se sobrepõe ao talento individual no futebol. Por mais que seja um gênio, Messi, caso saísse vitorioso, ontem, transformaria o futebol em algo menos prazeroso.
     Nós, brasileiros, sonhávamos com a tão aguardada conquista do "hexa". Entretanto, apesar da eliminação da seleção brasileira nas semifinais, devemos estar orgulhosos, pois também fomos campeões já que transmitimos à mídia e à comunidade internacional uma imagem positiva. Não houve milagres, como muitos afirmaram. Erramos em aspectos como a limpeza urbana e não entregamos a tempo obras previstas. Todavia, nos empenhamos ao máximo para acolher turistas da melhor forma possível e o que tivemos a oferecer em termos de infraestrutura foi aquém do esperado, porém suficiente para realização de uma grande copa, que poderia ser melhor ainda. Nota: 8,5.
     As falhas de agora não podem se repetir em 2016. Temos condições de realizar outro grande evento esportivo que contagie o mundo. Precisamos dar cada vez mais importância à construção de um legado que beneficie as cidades sedes. Por outro lado, é evidente o sentimento de saudade. Durante 30 dias, torcemos e curtimos a nossa Copa. Os jogos emocionantes e a atmosfera trazida pelos turistas farão falta. A Alemanha venceu a Copa do Mundo de 2014 e os brasileiros foram campeões de alegria e simpatia. Provavelmente, devido à boa impressão que surpreendeu o mundo e a cúpula da FIFA, não precisaremos esperar tantos 64 anos para sentir a emoção de ver os maiores craques do futebol mundial em gramados brasileiros novamente!

Leia mais sobre a Copa do Mundo da FIFA
http://oglobo.globo.com/esportes/copa-2014/em-balanco-da-copa-valcke-isenta-fifa-de-culpa-no-escandalo-dos-ingressos-13252446
http://oglobo.globo.com/esportes/copa-2014/proxima-sede-da-copa-russia-admite-desafio-de-reproduzir-atmosfera-do-brasil-13245830

* Veja 10 imagens marcantes da Copa de 2014
http://oglobo.globo.com/esportes/momentos-marcantes-da-copa-no-brasil-13251329


                                                                Mattheus Reis   

segunda-feira, 30 de junho de 2014

País sem dono

                                                             Iraque rachado


Nesta terça-feira, supervisores de Direitos Humanos da ONU alertaram para o possível risco de genocídio que enfrenta a minoria religiosa yazidi, no Iraque. Na foto, uma mãe e seus filhos caminham para fronteira com a Síria Foto: STRINGER/IRAQ / REUTERS     O clima de aparente tranquilidade no qual vivia o Iraque desde a retirada das tropas americanas do país pelo presidente Obama, no fim de 2012, parece ter acabado. O terror e o medo, que antes podiam estar sendo represados seja pela censura ou pelos esforços das forças militares iraquianas, romperam o dique que os segurava. A possibilidade de uma guerra civil é grande em uma conjuntura na qual os dias de pouca paz que restavam no oriente médio podem ter terminado.
     Além dos conflitos entre judeus e palestinos, da guerra civil na Síria - que continua após 3 anos - e da crise política no Egito, um grupo ultrarradical está promovendo um choque de poder onde Saddam Hussein governou rispidamente por muito tempo. O grupo Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês) está gradativamente tomando cidades importantes do Iraque e da Síria com o intuito de criar um novo país, regido pelo fundamentalismo islâmico.
     Fazem isso com o auxílio de grande arsenal roubado após inúmeras invasões aos quarteis das forças armadas iraquianas. Destituem lideranças locais e atemorizam a população com execuções sumárias de minorias não muçulmanas, vistas pelo extremistas como impuras. O grupo terrorista era vinculado à al-Qaeda, mas, posteriormente, tais laços foram cortados já que a al-Qaeda o considerou "radical demais". E esse é o fato que dá uma noção mais clara do que esse grupo é capaz: o mais conhecido grupo fundamentalista e autor de ataques suicidas horripilantes, como o do 11 de Setembro, reconhecendo a periculosidade de outro, menos conhecido, porém fiel aos seus dogmas ao extremo.
     Não é a toa que um grande contingente de soldados iraquianos desertou pelo temor de combaterem o ISIS, facilitando, assim, a sua propagação e o alastramento do terror no país. Sem segurança, inúmeras habitantes do norte do país estão deixando tudo para trás, em um grande êxodo, e partem para montanhas e locais mais seguros. Na Síria, o vazio de poder e o caos da guerra civil colaboram para a ação do grupo jihadista.
     Todo o caos que abala o Iraque, atualmente, comprova as falhas graves presentes no projeto de democratização forçada na região pelos E.U.A. Nouri al-Maliki, primeiro ministro, que chegou ao poder apoiado pelos americanos, com o intuito de liderar tal democratização, demonstra não ter força suficiente para recolocar seu país, ao mínimo, nos eixos. As forças militares iraquianas enfraqueceram-se após o fim do suporte financeiro e técnico dos E.U.A. Para não correr o risco de perder as eleições presidenciais de 2012, Obama reiterou a retirada das tropas americanas do Iraque. Essa e a reforma do sistema de saúde foram suas principais bandeiras de campanha. A saída dos soldados era necessária devido à rejeição da opinião pública com uma guerra sem vencedores e, sobretudo, cara. Todavia, poderia ter sido executada de uma forma mais gradual, que não deixasse o Iraque às traças, evitando, assim, o surgimento de radicalismos como o do ISIS.
     A guerra civil é uma preocupação cada vez mais latente por conta de um ultimato. O sheik xiita Ali al-Sistani, figura religiosa mais influente do país, intimou a população a se armar e a lutar contra o ISIS. Milhares deles já se uniram aos soldados iraquianos restantes. A população, de maioria xiita, contra o ISIS, de caráter sunita. Nessa terra, onde um sheik e um grupo terrorista possuem maior força do que um líder político, o futuro é tenebroso. 

Leia uma outra visão da nova crise do Iraque!

                                               Mattheus Reis

quarta-feira, 11 de junho de 2014

As duas Copas

                                                Chances perdidas


O texto a seguir foi escrito pela jornalista e colunista do "O Globo" Miriam Leitão e publicado na edição carioca do jornal em 11/05/2014. Vale a pena ler!
    
     Há duas vitórias a buscar quando um país é sede da Copa do Mundo, principalmente se ele for subdesenvolvido, como é o caso do Brasil. O campeonato, em si, e a chance de aproveitar bem a vitrine mundial. Com todos os olhos sobre nós, o Brasil poderia mostrar capacidade de realização, organização, boa estrutura de tecnologia de informação, bons serviços. Isso ampliaria as possibilidades de atrair turistas e investidores. Poderia.
     A esta altura, já estamos na fase de administrar o dano à imagem. A copa da vitrine já perdemos. Passamos, ao longo da preparação, a ideia de país que improvisa, não cumpre prazos e assusta organizadores com a incerteza. Os estádios não estão prontos e o da abertura do evento, na melhor das hipóteses, estará com a parte do futebol pronta e o resto no meio do caminho.
     Há riscos que ainda estamos correndo e que dificilmente conseguiremos evitar. Um é o de não ter uma boa infraestrutura de comunicação com internet nos estádios. O próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, admitiu que metade dos estádios da Copa pode ter problemas com a rede de telefonia móvel.
     Na era da comunicação, no meio de um evento em que haverá jornalistas do mundo inteiro e consumidores intensos de TI para a transmissão de imagens e som, o Brasil tem a apresentar deficiência na cobertura de celular. É espantoso e sinal de subdesenvolvimento.
     Hoje, quem não tem uma boa estrutura de TI em eventos globais passa o recibo do atraso. E país que teve tempo para se preparar e não conseguiu fazer o básico a tempo passa a imagem de incapacidade de organização. Ter boa imagem não é apenas para sair bem na foto, não é uma questão de vaidade nacional. É o caminho para atrair investidores e turistas. O Brasil, com baixa taxa de investimento e com uma balança cronicamente deficitária em turismo, poderia ter aproveitado melhor essa chance. Poderia. Mas hoje já se sabe que tudo o que se pode fazer é torcer para que o pior não aconteça. Já não deixaremos boa impressão; temos que tentar evitar um colapso nos serviços de comunicação.
     Aeroportos não estão com obras concluídas e as obras de estrutura de energia para os estádios da Copa estão atrasadas em metade das cidades-sede. Em quatro delas há atrasos significativos, de acordo com a Aneel, como Porto Alegre, Belo Horizonte, Manaus e Curitiba. O que causa espanto é por que o país não foi sendo alertado pela agência, com maior frequência e rapidez, e por que não se corrigiu esse problema a tempo. Imagina o risco que se corre sem a estrutura de energia para os estádios?
     Há episódios mais dolorosos, como os das mortes de operários. São nove os casos. Quando isso acontece, o trabalhador de uma empreiteira grande, prestadora de serviços para o governo, não cumpriu, provavelmente,  requisitos de segurança mínimos exigidos por lei porque precisava se apressar para entregar a obra. Não por sua culpa, mas por culpa da falta de organização de seus chefes e superiores.
     Quando o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, diz que viveu o inferno ao conviver com os três níveis de governo no Brasil, ou quando reclama que o Itaquerão ficará pronto, mas só no último minuto, temos a noção de que o país já passou péssima impressão. Pode-se não gostar de Valcke, mas é inegável que a burocracia e a dificuldade de entendimento entre níveis de governo diferentes são velhos defeitos do Brasil. Outro é o de atraso sistemático de qualquer obra e incapacidade crônica de se cumprir prazos.
     Sediar uma Copa é uma chance de mostrar virtudes do país e oportunidades para turistas e investidores. É também o momento certo para se quebrar os estereótipos que se tem no exterior em relação a nós. Pelo conjunto da obra, até agora, estamos confirmando o estereótipo e mostrando mais defeitos que qualidades. Também é uma chance para nos apressarmos em obras necessárias para nós mesmos. Nisso, também perdemos oportunidade.
     A realização de um evento desse porte é a melhor forma de jogar no ataque para assim ganhar esse jogo mais permanente, que vai além da disputa entre as seleções. Mas o máximo que se pode fazer agora é reforçar a zaga e torcer pelo goleiro, porque teremos que ficar na retranca lutando para que não aconteça um grande apagão de energia em um dos estádios, ou seja possível aos jornalistas transmitir informações mesmo sem infraestrutura boa de comunicação durante os jogos. No mais, resta torcer pela seleção do Felipão para ganhar pelo menos uma das duas copas.

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No dia 14 de Julho de 2014, voltaremos a falar sobre a Copa do Mundo, mas dessa vez o assunto será o futebol de fato!
Mattheus Reis


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Nova cara da Europa

                                   Não tão unidos quanto antes


     A cada cinco anos, a bancada do parlamento europeu se renova através de eleições que ocorrem nos países membros da União Europeia. Cada país possui um número específico de cadeiras proporcional à quantidade de habitantes. No último domingo, tais eleições foram realizadas e o resultado ratificou uma tendência preocupante: a ascensão de partidos radicais, que, cada vez mais expressivos, estão influenciando nas decisões políticas e econômicas de um continente ainda em situação de crise.
     Tal preocupação reside no fato de que os partidos radicais podem atrapalhar o processo, já iniciado pelos partidos tradicionais e moderados, de recuperação econômica da Europa, pautado nos cortes de gastos e no aumento da carga tributária. Os radicais defendem, em sua maioria, o fim da UE, dos pacotes de austeridade e maiores restrições à chegada de imigrantes. De cunho xenófobo e ultranacionalista, estes partidos - alguns deles apoiam inclusive o nazismo - conquistaram resultados significativos na França, Inglaterra, Hungria, Áustria, Dinamarca e Grécia.
      Os casos mais emblemáticos foram as vitórias, na Inglaterra, do Partido pela Independência do Reino Unido, cuja principal meta é endossar a proposta do primeiro-ministro David Cameron de realizar um plebiscito, em 2015, acerca da permanência ou não do país no bloco e de um comediante que apresenta seu show de humor na TV trajado de Hitler na Alemanha. Se aproveitando do futuro cargo, afirmou que ele e seus suplentes tentarão ganhar a maior quantidade de dinheiro possível.
     A Europa se recupera gradativamente, porém não alcançou um status econômico completamente estável. A expectativa dos especialistas é a de que, após quatro anos, o bloco europeu volte a crescer em 2014. Entretanto, a crise tachou precocemente os atuais governos de incompetentes e propiciou a redução dos benefícios que sustentavam o estado de bem-estar social aos cidadãos, o elevou a voz extremista.
     Os partidos moderados ainda são a maioria no parlamento europeu. O presidente francês François Hollande e a chanceler alemã Angela Merkel são o pilar de sustentação desse grupo, preocupado com o crescimento dos radicais tanto de esquerda quanto de direita, que, antes da crise, eram minoritários e renegados no cenário político do continente. Eles, que dificilmente conseguiam eleger candidatos, atualmente já detêm mais de 30% das cadeiras e, por isso, podem retardar o crescimento da economia e do emprego no bloco.


                                                                Mattheus Reis

sábado, 24 de maio de 2014

Fim da espera

                                       A parte feliz de Madrid


     A vitória do Real Madrid sobre o rival Atlético de Madrid, hoje, em uma final inédita da Liga dos Campeões da Europa pôs fim a um longo jejum. Nunca dois times da mesma cidade tinham decidido um torneio tão importante. Depois de 12 anos, o time liderado por Cristiano Ronaldo voltou a conquistar um campeonato europeu em um jogo que após 92 minutos mudou de rumo devido a uma cabeçada potente. Este é o 10° título merengue da Liga.
     O argentino Simeone é, sem dúvida, o melhor técnico da temporada. Levou o Atlético de Madrid a um patamar excepcional no futebol europeu. No último sábado, sentiu a alegria de dar aos "Colchoneros" um campeonato nacional após 18 anos. Além desse título, conquistou, anteriormente, a Liga Europa e a Copa do Rei. Um time cirúrgico, paradoxalmente raçudo e frio, que não demonstra estar pressionado em momento algum. Derrotou gigantes como Milan (ITA), Barcelona (ESP) e Chelsea (ING). Neste sábado, a alegria não se repetiu por um acaso, ou melhor, por uma cabeçada certeira.
     Os Diegos do Atlético, fundamentais durante a temporada, contavam os segundos para a consagração máxima. Diego Godín - líder de um sistema defensivo quase intransponível - e Diego Costa e Diego Simeone, do banco de reservas, viram Sérgio Ramos adiar a festa. A prorrogação viria, mas nem tudo estava perdido, pensavam os "colchoneros". Muito menos definido.
     Faltou ar a um time sobrecarregado que lutou até aonde pôde. O que não aconteceu com o adversário Real Madrid já que possui jogadores reservas mais qualificados. E isso justifica os três gols sofridos no decorrer dos 30 minutos da prorrogação, que definiram a final. O dique havia se rompido. A cereja do bolo foi o pênalti convertido por Cristiano Ronaldo em Lisboa, sede da final, onde se projetou para o mundo do futebol quando atuava pelo Sporting. Simeone foi além do esperado e o Atlético de Madrid sempre estará em dívida com seu treinador. Ele deve continuar a frente do time, mas já é possível prever seu futuro como comandante da seleção de seu país. Pode acontecer em breve como também demorar certo tempo, porém é algo iminente.
     Jogar uma decisão pressionado não é fácil. O Real Madrid, tido por grande parte da imprensa como o favorito, estava nervoso, caçando a todo custo "a décima". Parecia que não seria o grande dia, mas foi o da consagração de um time muitas vezes ofuscado pelo talento fascinante do oponente Barcelona. A comemoração de Cristiano Ronaldo, ao marcar seu gol, comprovou a força de seu time. Apenas um lado da capital espanhola está em festa.

                                                                 Mattheus Reis

terça-feira, 13 de maio de 2014

Curto-circuito

                          Descompasso no setor elétrico

     Dados do Operador Nacional do Sistema elétrico indicam que o nível médio dos reservatórios de água utilizados na geração de energia pelas usinas hidrelétricas atingiu pela primeira vez um valor abaixo do registrado em 2001, ano em que ocorreu o maior apagão da história do país. Obras emergenciais para otimizar o aproveitamento desta pouca quantidade de água que resta estão sendo executadas, o que pode adiar um racionamento no momento. Essa crise é a materialização de um problema muito grave pelo qual o Brasil está enfrentando nesse setor.
     Nesse contexto, Dilma Rousseff autorizou o funcionamento a pleno vapor de todas as usinas termelétricas a fim de evitar um racionamento durante a Copa do Mundo. Isso, porém, aumenta os custos de geração de energia, que serão repassados para a população, conforme citou a presidente, em seu último pronunciamento na cadeia de rádio e tv. Ou seja, a conta de luz ficará mais cara nos próximos meses. Com a conta de luz mais cara, as famílias brasileiras tendem a poupar energia, reduzindo os riscos de apagão. Essa é uma estratégia de contingência adotada pelo governo federal. Daqui a seis meses, entretanto, a onda de calor voltará e obrigará todos a aumentarem o consumo de energia novamente. Essa crise, provavelmente, só se amenizará caso chova bastante no próximo verão e os níveis dos reservatórios se normalizem.
     O Brasil, desde quando sofreu seu último grande apagão, em 2001, cresceu economicamente e o programa "Brasil sem miséria", encabeçado pelo Bolsa Família, promoveu na última década a ascensão social de mais de 40 milhões de cidadãos, que elevaram não só a renda mas também o consumo de alimentos, eletrodomésticos e, principalmente, energia. Os investimentos no setor energético, ao longo dos últimos governos, não acompanharam essa transformação social pautada na ascensão da classe C, o que sobrecarregou a geração e a transmissão de energia elétrica no país. O atraso em obras de novas usinas hidrelétricas e eólicas bem como de linhas de transmissão de energia contribuem também para a situação ter chegado a tal ponto de preocupação.
     A energia no Brasil é oriunda em sua maior parte - cerca de 80% -  de usinas hidrelétricas. Somos, por isso, dependentes das chuvas que nutrem os rios essenciais para a obtenção da energia, logo para o desenvolvimento do país. O governo, em suas esferas de poder, ciente das mudanças climáticas pelas quais o planeta atravessa, sendo cada vez mais frequentes eventos extremos como secas, deveria estar preparado tanto para elaborar medidas que atenuassem os impactos do aquecimento global no Brasil  quanto projetos que ampliassem a oferta e o aproveitamento de energia e reduzissem a dependência da hidroeletricidade, como a expansão de usinas eólicas e solares, cujos potenciais de crescimento são enormes.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

"S" de saudade

                                                                         1°

    Há 20 anos, em um dia 1° de Maio, o tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna, ao se chocar com um muro a mais de 300 Km/h, na curva Tamburello, em Ímola, nos deixou. Em um grande prêmio que não deveria ter acontecido, outro piloto brasileiro, Rubens Barrichello, sofreu um gravíssimo acidente na sexta-feira durante os treinos livres e, no sábado, o austríaco Roland Ratzenberg não resistiu a outro grave acidente quando disputava o treino que definiria as posições do grid para a largada do dia seguinte. No dia da corrida, Senna, por mais abalado que estivesse, estava determinado a vencer o GP e, assim, homenagear o seu companheiro de profissão. Porém, não foi isso o que aconteceu...  
     Senna possuía uma ambiguidade explicada somente pela sua paixão pela velocidade. Cada vez que um grave acidente acontecia na Fórmula 1, ele sempre parava, por um segundo que fosse, para repensar se correr a mais de 300 Km/h pelos circuitos do mundo em carros muito menos seguros que os de hoje valia a pena. Entretanto, essa dúvida era passageira. Chegava e ia embora na mesma velocidade em que ele rasgava o asfalto. Logo depois, Senna estava dentro de seu cockpit fazendo de tudo para ser milésimos de segundo mais rápido. Não há como lutar contra o destino. A Fórmula 1 sempre foi muito rápida e dinâmica. Parar, por um segundo, para pensar sobre certas "bobagens" era estar um segundo atrás de Prost, Mansell e outros. Na Fórmula 1, um segundo equivale a um ano-luz. Não há tempo a perder.
     Senna surgiu para os brasileiros em um momento muito difícil para o país, marcado no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990 pelas crises social e econômica. Ouviam-se promessas de que "o tigre da inflação seria abatido com apenas um tiro". Senna cumpria aquilo que prometia. Antes de estrear na Fórmula 1, disse a Galvão Bueno que o narrador seria o porta-voz de suas vitórias, que aconteceram de fato. Se, por um lado, não estávamos à altura de França, EUA e Inglaterra em termos de desenvolvimento, o fato do Brasil ter um piloto mais rápido que os da França, Alemanha e Inglaterra serviu de alento para nós, desacreditados em quase tudo,  naqueles anos turbulentos. Senna, ao demonstrar o seu patriotismo a cada vitória, em um momento em que sua pátria estava 10 metros abaixo do fundo do poço, conquistava os brasileiros, que fizeram dele um herói.
     A matemática diz que 7 é maior que 3. Todavia a história da Fórmula 1 pode contestar a frieza dos números. A comparação entre o tricampeão Senna e o heptacampeão mundial Michael Schumacher tem sido inevitável nos últimos anos. Porém, o fato de Schumacher declarar-se fã do brasileiro parece por um ponto final em qualquer dúvida. Ultrapassar 10 pilotos e chegar à liderança de uma corrida na primeira volta, vencer o Grande Prêmio do Brasil, em 1991, com apenas uma marcha funcionando corretamente, além de enfrentar de igual para igual a geração de pilotos tida por muitos como a mais talentosa da história são façanhas dignas de apenas um gênio. Neste caso, sou obrigado a cometer uma heresia: 7 < 3. Os matemáticos que me desculpem.
     Senna viveu em um ambiente cercado por politicagens e interesses. Ele, em alguns momentos, errou, como todo ser-humano, e deixou a competição e os interesses pessoais ultrapassarem o espírito esportivo. São detalhes de uma carreira notória, excepcional, mas, ao mesmo tempo, breve do maior ídolo do esporte brasileiro. Hoje, o Brasil - às vésperas de sediar sua segunda Copa do Mundo - é o país do futebol. Foi e sempre será. Mas, há 20 anos, era também o país da Fórmula 1, onde assistir à corrida nas manhãs de domingo era um ritual tão sagrado quanto assistir a um jogo da seleção em Copa do Mundo. Vejo as corridas desde os 6 anos de idade, mas lamento, assim como tantos outros jovens, não ter testemunhado as ultrapassagens, as vitórias e os títulos de Ayrton Senna do Brasil.     

                                                         
*Leia mais sobre os 20 anos do adeus de Senna!
http://veja.abril.com.br/reportagens-especiais/20-anos-sem-ayrton-senna/
http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/senna-para-sempre/noticia/2014/04/brasil-na-cabeca-e-nas-maos-senna-elevou-autoestima-de-uma-nacao.html
http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,apos-20-anos-ayrton-senna-deixa-legado-em-seguranca-para-formula-1,1158768,0.htm


                                                       Mattheus Reis