segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Heroi improvável

                          O jogo é apenas a "cereja do bolo".


Heroi: O momento exato da
interceptação de Butler (21).
       Nenhum jogador em qualquer outra posição recebe mais destaque por parte da mídia e personaliza um time no futebol americano do que um quarterback. Pode não ser o melhor tecnicamente do elenco, mas, por exercer a função de armar jogadas e ser um líder em campo, o quaterback ganha notoriedade. Entretanto, na vitória do New England Patriots por 28 a 24 contra o Seattle Seahawks, na 49ª edição do Super Bowl, a grande decisão da liga, um até então desconhecido foi fundamental a 20 segundos do final da partida para alçar o campeão a um lugar de hegemonia no esporte nestes primeiros 14 anos do século XXI.
       Seattle, atrás no placar depois de liderar boa parte da final, precisava marcar 7 pontos, anotando um touchdown para passar à frente no minuto final e, assim, se sagrar bicampeão consecutivo - já havia ganho o campeonato na temporada passada contra o Denver Broncos. E estava bem próximo de conseguir, mais precisamente a uma jarda, menos de 1 metro, do paraíso, a end zone. Caso avançasse essa distância, venceria nas finais de 2014 e 2015 dois quarterbacks tidos como os melhores da história: Peyton Manning, jogador do Denver e Tom Brady, do New England. Seattle, porém, não conseguiu. Não porque o quarterback dos Patriots estava lá - Tom Brady acompanhava tudo da lateral do campo. Você conhecia Malcolm Butler? Hoje, você, provavelmente, ouvirá esse nome se assistir a um programa esportivo. Ele roubou a bola depois do passe feito pelo ataque, recuperando-a para o time de Brady. Não havia mais tempo para mudar o que o placar dizia: New England campeão!
       Russel Wilson, quaterback dos Seahawks e autor do passe interceptado foi muito questionado por não ter feito uma "jogada de segurança", entregando a bola para um dos melhores corredores do campeonato, Marshawn Lynch. Nunca saberemos se Lynch conseguiria passar pela marcação e dar mais um título ao então campeão. Wilson admitiu o erro. Um erro capital, que, por outro lado, concedeu maior reconhecimento ao trabalho árduo de um defensor não tão presente nas manchetes e não tão cercado pelos holofotes, mas tão importante quanto os outros 45 atletas que fazem parte de uma equipe de futebol americano. 
       Com o título conquistado ontem, o New England Patriots consolidou-se como o maior nome da Liga nacional de futebol americano (NFL) no século XXI. Em 14 finais, de 2001 até agora, esteve em 6, vencendo 4. Nenhum outro alcançou tais marcas nesse mesmo período. O estádio da finalíssima de ontem, em Phoenix, Arizona, é repleto de simbolismo para os vencedores. O Super Bowl de 2008 também foi realizado lá; os Patriots estavam lá, eram os favoritíssimos ao título naquele ano já que tinham vencido todos as partidas do campeonato. Todavia, perderam a única que não poderiam; falharam e sucumbiram naquela decisão para o New York Giants. Ontem, a história foi diferente. O palco até então de uma enorme frustração se transformou no de uma glória.
       Todos os anos, escrevo sobre o Super Bowl não à toa. É um evento cativante, assim como o campeonato inteiro, e a prova disso é a sua capacidade de atrair multidões aos estádios e às telas de TV mesmo não conhecendo as regras do jogo. Isso é ocasionado principalmente pela capacidade dos gestores do esporte em explorar muito bem o entretenimento, a mídia e o mercado consumidor em prol da emoção futebol americano. Quem teve a ideia de, em 15 minutos de intervalo, fazer um show? Por que mais de 100 milhões de espectadores acompanham o Super Bowl todo ano? Por conta dessa organização, que provavelmente não é perfeita, mas é eficiente, traz lucros e reinveste no fortalecimento do esporte, em franca expansão em países como o Brasil, onde a audiência cresceu 800% nos últimos 3 anos.
       O Brasil é o país do futebol e sempre será pela paixão dos brasileiros pela bola que rola no gramado. Possui um dos campeonatos mais disputados do mundo, o Brasileirão, é o maior vencedor de Copas do Mundo, com 5 triunfos, o maior jogador de futebol de todos os tempo é nosso! O esporte que é patrimônio do país e do povo brasileiro merece ser tratado e organizado com melhor planejamento, ética e seriedade a fim de que seja digno de comparação em termos de administração e qualidade com a NFL.  Essa necessidade também é pertinente para as outras modalidades praticadas no país, sobretudo as olímpicas, às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2016, na cidade do Rio de Janeiro.   

*Leia mais sobre a final de ontem!
  
                                                           Mattheus Reis
        

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Origem e finalidade



                               Uma história marcada pela violência



      Dois acontecimentos ocorridos nesta semana puseram em evidência na pauta de discussões e preocupações dos principais líderes ocidentais o número crescente de ações e de grupos cujo objetivo predominante é difundir uma interpretação radical e, sobretudo, equivocada das leis islâmicas. O sequestro que manteve por horas pessoas reféns em um café na cidade de Sydney, realizado aparentemente de modo autônomo por um clérigo iraniano radicado na Austrália, bem como um ataque sangrento, de autoria reconhecida pelo grupo Talibã, a uma escola militar na cidade paquistanesa de Peshwar que deixou cerca de 130 vítimas, a maioria delas crianças, estão inseridos nesse contexto no qual a violência é origem e finalidade.     
       Os EUA e seus aliados, mergulhados na disputa ideológica da Guerra Fria, "criaram", no século XX, inimigos que os atormentam neste início de século XXI. A conjuntura política e cultural do Oriente Médio começou a intensificar seus contornos explosivos a partir de um evento-chave: a Revolução Iraniana, em 1979, que marcou a transformação do país em um Estado profundamente influenciado por uma interpretação mais inflexível da sharia, as leis de conduta do islã. O Wahhabismo é uma dessas correntes de interpretação.
       Em uma análise mais objetiva, a Revolução caracterizou-se como uma resposta vinda dos setores mais conservadores contra a presença de valores e hábitos do Ocidente não só no Irã mas também no mundo árabe e que seriam "responsáveis pela deterioração da cultura puramente muçulmana".
       Temerária quanto à expansão do processo de radicalização do islã, a União Soviética ocupou militarmente, no mesmo ano, uma de suas áreas de influência, o Afeganistão, país vizinho ao Irã e abrigo do Talibã, grupo também radical com potencial para empreender uma revolução similar. Os EUA e seus principais aliados vislumbraram no Talibã e em outros grupos semelhantes ideologicamente, como a al-Qaeda, um auxílio no combate ao adversário socialista na região, passando, portanto, a os financiar técnica e financeiramente.
      Os grupos fundamentalistas, a partir de então, cresceram não só em quantidade como em poder mesmo após o colapso e desintegração da União Soviética. A intensificação da globalização difundiu mais intensamente, através da internet e dos programas de tv, valores morais e culturais aos quais o islã se opõe, colocando as culturas ocidental e muçulmana em rota de colisão. Os ataques suicidas em resposta à "perda gradual dos valores e da pureza das tradições da religião presentes em povos árabes e não-árabes" consequentemente se sucederam.
      Em um contexto mais recente, outros dois fatores tem significativa importância: a Primavera Árabe e a retirada das tropas americanas do Iraque, bandeira da primeira campanha presidencial de Barack Obama e concretizada no fim de 2012. Ocorrida no início de 2011, a Primavera Árabe marcou o desmantelamento de estruturas de poder originárias da Guerra Fria em países como o Egito e a Líbia. O cenário de autoritarismo, violação dos direitos humanos e desigualdade social nesses países foi determinante para a eclosão dos protestos que culminaram na deposição de líderes presentes no poder há décadas e aliados das potências ocidentais. 
       Uma característica comum a esses líderes (Hosni Mubarak e Muamar Kadafi, respectivamente), porém, era imprescindível para a estabilidade do mundo árabe: o secularismo, ou seja, uma maior separação dos valores religiosos em relação às decisões políticas e institucionais. A saída de tais lideranças da cena política abriu espaço para a ascensão de grupos ligados e/ou simpatizantes ao fundamentalismo islâmico. No Egito, a até então marginalizada Irmandade Muçulmana é um desses exemplos. Chegou a vencer as primeiras eleições democráticas da história do país, mas, após um ano, foi derrubada e posta novamente na clandestinidade por um golpe militar baseado em um viés secularista. 
       Já a retirada das tropas americanas do Iraque após 9 anos de guerra pode ser , hoje, considerada precipitada por conta da forma pela qual foi posta em prática. Devido às reduções do efetivo militar americano e dos suportes técnico e financeiro para as forças armadas iraquianas terem acontecido rapidamente, tão rapidamente também se constatou a fragilidade de defesa do Iraque, ainda não preparado para andar com as próprias pernas. A consequência tem nome e fúria: Estado Islâmico, grupo fundamentalista que ganhou as manchetes da imprensa mundial pelas invasões a quarteis, refinarias e represas do país e da Síria, roubo de armas e execuções bárbaras de jornalistas e voluntários de ONGs humanitárias. Obama precisou reagir, sendo obrigado a liderar um ataque aéreo, no mês passado, aos pontos estratégicos do Estado Islâmico.
       A situação caótica no Oriente Médio começou com a prática da violência cultural, empreendida com intuitos políticos e econômicos e responsável por hierarquizar culturalmente os povos e suprimir hábitos e tradições, no contexto, da cultura islâmica. Entretanto, isso não pode ser a justificativa de grupos fundamentalistas e do Ocidente para pôr em prática a violência bélica, traumática para ambos os lados. A violência pode gerar violência, mas violência não justifica violência. E tanto os americanos, que em pesquisas  de opinião rejeitam uma nova intervenção militar no Oriente Médio, quanto os árabes, que condenam as ações do Estado Islâmico e de outros grupos, sabem disso.


Leia mais sobre o assunto!
http://www.dw.de/estado-isl%C3%A2mico-leva-mundo-%C3%A1rabe-a-debater-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-terrorismo-e-religi%C3%A3o/a-17954602
http://noticias.terra.com.br/mundo/oriente-medio/pesquisa-revela-que-85-dos-arabes-nao-apoiam-acoes-do-ei,e1895c5c66ab9410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wahhabismo                                                         


                                                              Mattheus Reis
      

sábado, 6 de dezembro de 2014

O voto e sua importância

                                      Por quê o caminho mais fácil?
     
Crianças perfiladas para execução do hino nacional no Sarah Dawsey: cerimônia toda segunda-feira para, segundo a diretora, 'desenvolver a cidadania' Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo       Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a eleição de 2014 foi aquela que contou com a menor participação de jovens entre 16 e 20 anos da história. Motivos como a progressiva redução da taxa de natalidade ao longo das últimas décadas no Brasil são decisivos, porém não se pode ignorar um ceticismo de grande parte desses jovens quanto ao modelo político vigente e a sua condução.
      A democracia representativa é o modelo que norteia a política nacional e a de maioria esmagadora de outros países ao redor do mundo, sendo o voto fundamental nesse processo. A corrupção, os lentos avanços pelos quais o país atravessa nos setores públicos e no combate às desigualdades pertinentes ao cotidiano bem como o tratamento não igualitário da justiça e das leis, pautado, muitas vezes, no poder econômico e de influência nos fazem, brasileiros, não acreditar em um futuro melhor, no mínimo menos injusto.
      Essa descrença se reflete nos jovens, cuja significativa parcela, mesmo apta a votar aos 16 e 17 anos não o fazem e não encaminham a documentação necessária para votar quando são obrigados a participarem das eleições, a partir de 18 anos. O descontentamento é compartilhado por outros independentemente da idade.
      Nesse contexto, surge um polêmico debate: o fim do voto obrigatório entra em pauta. Ao mesmo tempo, surge também uma reflexão: ao defender a extinção dessa obrigatoriedade, estariam seus defensores não dando devido valor e respeito aos líderes da Diretas Já e àqueles que morreram eletrocutados, no pau-de-arara e intoxicados na Ditadura Militar? Por mais que alguns membros da esquerda tenham cometido erros graves como a adesão à luta armada, buscava-se uma expansão dos direitos civis, como o voto para presidente. Vivemos em um país de tradições religiosas fortes, mas ao mesmo tempo ignoramos muitas vezes um preceito comum a todas as religiões: o amor ao próximo.
       Tal desinteresse pode estimular mais práticas ilícitas daqueles que compõem o poder pois abrir mão do voto significa, em tese, abrir mão de escolher um político conscientemente e fiscalizar a sua atuação. Apoiar o fim da obrigatoriedade do voto em uma viés no qual apenas eleitores conscientes politicamente iriam votar soa discriminatório e pode ampliar ainda mais o esquema de compra de votos: sendo o voto eventualmente facultativo, mais eleitores poderiam ir às urnas por questões meramente financeiras, principalmente em currais eleitorais.
      O início de uma reforma política tem como ponto de partida a escolha de representantes comprometidos com a essa causa. Estimular o interesse e o senso crítico dos eleitores em relação à política é, portanto, fundamental e é o que está sendo posto em prática e resgatado em alguns colégios no Rio de Janeiro, onde os alunos estudam conteúdos de cidadania e ética nas aulas de História e Geografia e praticam atos de respeito e valorização à pátria como a execução do Hino nacional. Caso sejam expandidas, essas medidas podem ser bem sucedidas na tentativa de, no futuro, termos uma geração mais consciente acerca da importância do voto e da política, como um todo, do que a atual.      

Leia mais sobre o assunto!

                                                                    Mattheus Reis

domingo, 23 de novembro de 2014

O campeão voltou

                                   Hamilton venceu dois adversários


Lewis Hamilton F1 GP Abu Dhabi (Foto: AFP)     A vitória no Grande Prêmio de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, foi mais que suficiente para o inglês Lewis Hamilton conquistar, após intensas disputas com o companheiro de equipe, Nico Rosberg, mais um campeonato na Fórmula-1 depois de 6 anos de jejum. Um ano especial para Hamilton, que, com 11 vitórias na temporada, tornou-se não só o maior vencedor de corridas entre pilotos ingleses (33 triunfos no total), ultrapassando o lendário Nigel Mansell, mas também o único inglês bicampeão da categoria. Para alcançar esses feitos, não precisou somente duelar contra Rosberg.
     Após conquistar seu primeiro título mundial de pilotos, em 2008, em uma épica batalha contra Felipe Massa, Hamilton fascinou-se pela fama e notoriedade adquiridas e caiu de rendimento nas temporadas seguintes. Os erros e imprudências o afastaram das vitórias e, por conta disso, sua imagem se arranhou com a equipe que defendia, a McLaren.
     Hamilton precisou redescobrir seu espírito competitivo e dedicação ao trabalho com o intuito de retrilhar o caminho de sucesso nas pistas. O jejum de títulos e as poucas vitórias são desesperadores para qualquer piloto que conheça seu potencial e talento. Hamilton os tinha e isso não se perde definitivamente. Quando se transferiu para a Scuderia Mercedes, ano passado, iniciou o seu processo de evolução assim como sua nova equipe. Os frutos do árduo trabalho foram, enfim, colhidos hoje. No meio do deserto, ele encontrou um oásis.
     É inegável a superioridade dos carros da Scuderia Mercedes, que dominaram a temporada: foram inúmeras "dobradinhas" e vitórias em 16 dos 19 GP's disputados. Porém, todo grande carro necessita de uma "excelente peça" no cockpit, entre o volante e o assento. Rosberg tinha plenas condições de ser campeão já que tinha nas mãos o mesmo carro e mecânicos tão qualificados quanto Hamilton. Os problemas mecânicos enfrentados pelo alemão em Abu Dhabi influenciaram na perda do título, mas não foram cruciais. O inglês, mais talentoso, conseguiu domar seu ímpeto, agressivo ao extremo, que lhe tirou o título de 2007, seu ano de estreia na Formula-1, ainda na McLaren, o melhor carro na época. Rosberg e o ímpeto descontrolado de Hamilton ficaram para trás. Uma corrida não se vence apenas na pista.
     A vitória na última etapa coroou o ano inesquecível de Hamilton, mas ela foi ameaçada nas voltas finais por Felipe Massa, o 2º colocado, guiando uma Willians, equipe que mais evoluiu em 2014, saltando da 9ª posição no campeonato de construtores, em 2013, para 3° nesta temporada. Esse desempenho surpreendente enche de expectativa os fãs brasileiros de que Massa possa novamente estar em condições de brigar por vitórias e até pelo título no ano que vem. Resta torcer! A Fórmula-1 voltará a rasgar o asfalto dos circuitos ao redor do mundo a partir de 15 de março em Melbourne, Austrália.

*Leia mais sobre o bicampeonato do piloto inglês Lewis Hamilton!
http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/2014/11/pegas-toques-e-vai-e-vem-da-amizade-hamilton-x-nico-chega-capitulo-final.html
http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/noticia/2014/11/top-5-relembre-duelos-historicos-que-marcaram-etapas-finais-da-formula-1.html
http://globoesporte.globo.com/motor/formula-1/fotos/2014/11/fotos-momentos-marcantes-da-formula-1-em-2014-em-imagens.html

                                                          Mattheus Reis
    

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Voto de protesto

                                     A função da oposição na política


     Enquanto no Brasil as últimas semanas foram norteadas pela corrida ao Planalto entre Aécio Neves e Dilma Rousseff, os EUA preparavam-se para outra eleição, não presidencial, mas não menos importante: a legislativa. Ao contrário do que se imagina, não há apenas os partidos Republicano e Democrata no cenário político americano. O Partido Independente e outros também se fazem presentes. Mas a influência e o poder dos dois maiores são tão absurdamente superiores que as disputas são polarizadas e praticamente todas as cadeiras no congresso são tomadas por eles. O que Obama não desejava aconteceu na última terça- feira. Os Republicanos ampliaram sua presença no parlamento, dificultando ainda mais os projetos que o presidente pretende iniciar nos dois anos que restam de seu mandato.  
     Nessas eleições, conhecidas também como "de meio de mandato", o presidente já sofrera um duro baque em 2010. Os Republicanos se tornavam maioria na Câmara dos Representantes. Naquele momento, o discurso de Obama começava a decair em descrédito, a economia não dava sinais efetivos de recuperação. Mas o Senado ainda estava sob o controle de seu partido. Agora, apesar da economia estar em fase de reaquecimento, com elevação do PIB e redução do desemprego, os democratas perderam o controle do Senado. Para piorar, em alguns estados também ocorreram eleições para governador, nas quais os Republicanos venceram na maioria deles. Em 30 dos 50 estados a oposição governa.
     Quando os candidatos - sejam a presidente, governador ou prefeito - iniciam suas campanhas, muitos deles optam por distorcer a realidade em seus discurso com o intuito de conquistar os preciosos votos. Obama é um político inteligente, porém subestimou alguns desafios que enfrentaria e que foram bandeiras de campanha tanto no âmbito externo, como a retirada das tropas do Iraque, quanto internamente na reforma do sistema de saúde, reforma da imigração, recuperação econômica e a feroz oposição Republicana. A ala radical desse partido, o Tea Party, ganhou força.
     O resultado, por conta de todos esses fatores, mostrou a indignação de grande parte do povo em relação à forma de Obama administrar a maior potência do planeta. Poucos avanços foram efetivados. A volta de intervenções militares no Oriente Médio, mesmo sem o envio de tropas, contra o Estado Islâmico reduziram sua popularidade.
     Por outro lado, conhecer os papeis de Legislativo e das oposições em um governo é fundamental para compreender alguns motivos dos poucos avanços da gestão Obama. Os Republicanos, liderados pelo Tea Party, impuseram várias restrições às propostas apresentadas pelo governo. Obviamente, alegaram motivos para isso, que encontram respaldo em setores da sociedade americana. Porém, tais motivos podem estar relegados a segundo plano em prol de um objetivo maior: criar um situação de ingovernabilidade de Obama, o que os favoreceria nas próximas eleições presidenciais, em 2016. Questões referentes à concessão de mais direitos aos imigrantes são urgentes em um país onde cerca de 30 milhões não são originalmente americanos. A oposição não pode bloquear pautas e reivindicações como essa, suprapartidárias.
     A oposição não está presente em qualquer governo minimamente democrático para se autoproclamar inimiga de quem está no poder. Seu dever é o de, através do diálogo, mostrar outros pontos de vista sobre qualquer proposta de lei, projeto e afins além de fiscalizar o cumprimento e a aplicação de recursos; tudo pelo objetivo de melhorar o país. Ao travar uma guerra ideológica e em alguns momentos infantil, o Partido Republicano, conjuntamente com os erros de Obama, não faz os EUA avançarem social e economicamente como deveria caso um ambiente mais harmônico e de consenso estivesse predominando na política local. Mas a luta, em praticamente todas as circunstâncias, pelo poder atropela o bem comum.
     
    


Leia mais sobre o assunto!
http://oglobo.globo.com/mundo/eleicoes-americanas/


                                                       Mattheus Reis

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Recado a Dilma


                              Nada mudou. Mas pode mudar.

      A eleição presidencial mais disputada da história do país. Nunca antes um candidato fora eleito ou reeleito para o cargo político mais importante do Brasil com uma margem percentual de votos tão apertada: 3,24% a mais para Dilma Rousseff. A já superada menor vantagem registrada de um presidenciável vitorioso em relação ao segundo colocado datava de 1955, quando Juscelino Kubitschek ganhou a corrida com vantagem de 5,44%. A emoção, de fato, esteve presente até os momentos finais na apuração: até por volta de 19:30Hs, Aécio Neves liderava, porém uma parcela significativa de votos da região Nordeste ainda não tinham sido contabilizados. O PT completará, em 2018, 16 anos à frente do país. A tendência de continuidade das estruturas de poder montadas nos governos Lula e Dilma é clara. Todavia algumas posturas que caminham a mudanças mais profundas foram sinalizadas.  
      A campanha foi a mais acirrada da história, assim como pode-se afirmar que foi uma das mais sujas. Vasculhou-se tudo, até mesmo sobre as vidas particulares dos candidatos a presidente, tendo as redes sociais dado suporte às acusações, na maioria das vezes, infundadas e irracionais. Na antevéspera da eleição, a disputa esquentou ainda mais por conta da publicação de uma reportagem na revista "Veja", que denunciava a conivência de Lula e Dilma acerca de escândalos de corrupção na Petrobrás. A reação da militância petista foi, ao mesmo tempo, imediata e absolutamente condenável de depredar a entrada da sede da revista.
      Foi um risco assumido pela diretoria da "Veja" ao autorizar a publicação de uma denúncia que ainda não pode ser comprovada já que os depoimentos de envolvidos no caso não foram oficializados nem divulgados integralmente. Além disso, a revista usualmente é posta em comercialização aos domingos, mas parte de seus exemplares já estava nas bancas na sexta-feira, dois dias antes do 2° turno, o que levanta fortes indícios de tentativa de induzir o voto dos eleitores. Sou estudante de Jornalismo e defendo a liberdade de expressão da imprensa. Mesmo assim, não considero-a acima de qualquer suspeita e seus erros, ligados sobretudo às questões ética e de imparcialidade, não podem passar desapercebidos. Esse foi um deles.
      Dilma Rousseff em seu primeiro pronunciamento após reeleita fez sinalizações que mostram uma clara disposição ao diálogo com a oposição, cujo ótimo desempenho de Aécio a fortaleceu. Um comportamento diferente daquele durante seu primeiro mandato, marcado por uma incisiva determinação da presidenta em conduzir o governo sob suas vontades. É uma atitude louvável em um cenário no qual somente um pouco de diálogo e consenso podem reverter problemas como a inflação próxima de bater o teto da meta estipulado, o baixo crescimento do PIB, metas fiscais e a crise energética, bem como outras pautas: saúde, educação, segurança, transporte e habitação.
      Por outro lado, a trajetória política de militância da presidenta durante a Ditadura Militar, que a marcou física e psicologicamente, estabelece uma questão prioritária, de honra, para o seu próximo ciclo de governo: a realização de um efetiva reforma política, que restrinja o financiamento empresarial às campanhas, puna com mais rigor crimes, como o de "caixa 2", entre outras medidas a fim de que a política não seja tão refém de interesses que não condizem com o bem-estar comum como é atualmente.
      Caso Dilma entenda o recado de mudança tão propagado na campanha e presente desde as manifestações do ano passado, ela honrará os princípios que passou a defender nos "anos de chumbo", apesar dos obstáculos que se impõem contra isso. Que suas palavras no discurso da vitória não sejam apenas para embelezar o seu texto.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Tudo velho de novo?

                                       Que dessa vez seja diferente.


      Apesar da já esperada disputa acirrada, a eleição presidencial de 2014 tinha até 13 de agosto um quê de previsibilidade. O principal embate estava polarizado entre o PT, de Dilma Rousseff, e o PSDB, com o candidato Aécio Neves. Com a morte de Eduardo Campos, a reviravolta foi tão grande que uma nova eleição começou a se desenhar. Porém, o resultado do 1° turno realinhou a corrida ao Planalto entre os adversários tradicionais. A chapa de terceira via, ao ser liderada, de fato, por Marina Silva ganhou força, amedrontando a presidenta e causando histeria na campanha tucana, mas perdeu fôlego na reta final.
      Marina Silva, Dilma Rouseff e Aécio Neves, individualmente, possuem trajetórias políticas marcantes e singulares. A candidata do PSB talvez tenha o passado mais tocante e comovente: de seringueira e alfabetizada apenas aos 16 anos a presidenciável. A 36ª líder do Brasil foi uma militante aguerrida durante a ditadura militar e enfrentou-a até as consequências mais drásticas, como a tortura. Já Aécio, criado em um ambiente altamente politizado por ser neto de Tancredo Neves, participou do movimento Diretas Já.
      O PT saiu vitorioso no 1° turno com mais de 41 milhões de votos dados a Dilma. Os programas sociais arrebatam milhões de seguidores, mas no segundo turno o partido continuará debatendo temas espinhosos e falhas na condução do governo, nos últimos 4 anos: desaceleração da economia e casos de corrupção. Além disso, a tática do medo, da qual o PT fora vítima e agora usa a seu favor assim como muitos quando chegam ao governo, dever ser persistente, infelizmente, em seus programas eleitorais.
      Marina Silva chegou a liderar em pesquisas de intenção de voto tanto no 1° quanto no 2° turnos. Entretanto, suas contradições e hesitações quanto a propostas de ampliação de direitos ao grupo GLBT, por exemplo, fizeram a candidata não ir, mais uma vez, à fase decisiva do pleito. Marina desejava muito que a eleição tivesse acontecido uma semana antes do dia 5 de outubro, pois ainda estaria na frente de Aécio. Os bombardeios de Dilma e Aécio contra Marina, inimiga comum aos dois naquele momento, também a comprometeram. Diferentemente de 2010, quando também não disputou o 2° turno, ao manifestar publicamente seu apoio a Aécio Neves, busca ser mais atuante, mas, ao mesmo tempo, reforça suas contradições: Se fosse Marina Silva fiel aos seus ideais em defesa da "nova política", não apoiaria nem Dilma nem Aécio, cujos  partidos ela aponta como os principais representantes da "velha política".
      O candidato do PSDB enfrentou muitos dilemas em sua caminhada até agora. Negociou intensamente o apoio da ala paulista tucana, indignada por não ter Serra ou Alckmin como nomes à presidência pelo partido, e enfrentou problemas nos bastidores que quase causaram a sua renúncia à disputa quando foi ultrapassado por Marina nas pesquisas. Todavia, sua derrota dupla em Minas Gerais, para Dilma e para o candidato petista a governador, mostram que ele não é tão unânime quanto afirma ser, em seu estado-natal, na propaganda eleitoral.
      A reviravolta a favor de Aécio o fortaleceu bastante para os próximos intensos dias de campanha pelo Brasil e isso se comprova através do empate técnico no último levantamento feito pelo IBOPE. Restam praticamente 10 dias para  "o dia D" e o Brasil deseja ouvir propostas para um futuro melhor. Tudo é possível e não se pode apontar um favorito. É, porém, lamentável que, nessa terça-feira, quando os dois candidatos se reencontrarão em mais um debate na Rede Bandeirantes de televisão, à noite, seja marcada novamente por ataques desmoralizantes e às vezes infundados. Não queremos e não merecemos isso.

                                                                 Mattheus Reis