quarta-feira, 27 de maio de 2015

Hora da limpeza

                                                     A maior vítima



Em xeque: será esta a sombra da
 corrupção que paira sobre a FIFA?
       O mundo do futebol recebeu nas primeiras horas de hoje a notícia da prisão de importantes dirigentes da FIFA, entidade responsável pela promoção e administração do esporte mais popular e praticado do planeta. A procuradoria-geral dos EUA acusa os 7 dirigentes detidos - dentre eles o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, José Maria Marin - de participação em esquemas de corrupção que envolvem desde a sonegação de impostos ao recebimento de propina com o intuito de favorecer as candidaturas que acabaram sendo vitoriosas de Rússia e Qatar para sediar os próximos mundiais em 2018 e 2022. Não deixa de ser lamentável a cada vez maior percepção de que um dos principais elementos para a harmonia entre os povos está profundamente contaminado por fraudes e interesses que nada têm a ver com os princípios desportivos.
       Al Capone era um dos mais temidos nomes da máfia em Nova York no início do século XX. Praticamente todos sabiam de suas atividades ilícitas, principalmente aquelas relacionadas ao contrabando de bebidas alcoólicas em uma época em que seu consumo era proibido nos EUA. Mesmo assim, Al Capone foi preso muitos anos depois já que raramente deixava provas e rastros contra si, sem contar os acordos com autoridades policiais que jogavam tudo "para debaixo do tapete". O lado obscuro da história da FIFA não é muito diferente: encontraram-se os tão raros rastros e a justiça americana pôde, então, agir.
       Segundo os investigadores do FBI, isso aconteceu porque um dos membros do comitê executivo da entidade, o americano Chuck Blazer, também acusado no inquérito, optou por contar detalhes do suposto "padrão FIFA" de corrupção, que pode estar operando há pelo menos 20 anos. As justiças americana e suíça puderam iniciar investigações já que tantos bancos americanos quanto suíços foram utilizados para transições financeiras fraudulentas.
       Os EUA têm, mesmo que indiretamente, exercido um papel importante em relação ao futebol ultimamente. Não estão apenas investindo no fortalecimento do campeonato nacional local, a Major League Soccer, como também deram o passo inicial para uma ampla "faxina" na FIFA e em outros órgãos e confederações em prol de políticas e negócios mais honestos caso as investigações se aprofundem. Indícios de corrupção e violações aos princípios do esporte também pairam sobre a Conmebol, responsável pela gestão do futebol sul-americano, e a CBF não é de hoje.
       A CBF há anos é constantemente criticada por práticas autoritárias e pouco transparentes, sendo comandada por um grupo que se estabeleceu no poder há décadas, começando por Ricardo Teixeira, Marin e o atual líder, Marco Polo del Nero. O fato de um dos detidos ser exatamente um ex-presidente da entidade é preocupante para o futebol mais vencedor da história e que atravessa uma crise de qualidade dentro e fora das "quatro linhas".
       Desde a trágica e humilhante derrota nas semifinais da Copa do Mundo de 2014 por 7 a 1 diante da Alemanha, inúmeros projetos de lei reivindicando o desenvolvimento do futebol precisam ser debatidos. Zelar pela transparência das instituições esportivas, fiscalizar e punir rigorosamente quem transgride leis e códigos de conduta, melhorar a infraestrutura e estabelecer diálogo com grupos de atletas, como o "Bom Senso FC", são fundamentais nesse processo de retomada de prestígio e qualidade. O momento é favorável ao debate sobre o esporte, sua modernização e legado: não é sempre que um país organiza, em tão curto espaço de tempo, os dois maiores eventos do mundo, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, geralmente vistos como catalisadores de modernizações. Essa oportunidade dificilmente baterá a nossa porta de novo.
       Os dirigentes presos estavam reunidos para a eleição à presidência da FIFA, marcada para esta sexta-feira e que, caso seja mantida, acontecerá sob grande turbulência. A última barreira moral, a do esporte, onde, a princípio, os interesses não entravam no jogo, foi derrubada há muito tempo. Escândalos como o deflagrado hoje retratam isso. O esporte não merecia perder de goleada para a ganância e a falta de ética.

*Leia mais sobre o assunto!
http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2015/05/advogada-geral-dos-eua-diz-que-esquema-se-estendeu-ano-apos-ano.html
http://oglobo.globo.com/esportes/chuck-blazer-senhor-10-que-colaborou-na-investigacao-do-fbi-16274401
http://oglobo.globo.com/esportes/de-delacao-na-ditadura-furto-de-medalha-polemica-trajetoria-de-marin-16273021

                                                            Mattheus Reis

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Guerra sem limites

                                               O crime do Estado

  
Sem perdão: Joko Widodo
declarou guerra ao tráfico de drogas

       A eleição de Joko Widodo para a presidência da Indonésia, em julho de 2014, parecia conduzir definitivamente o 4º país mais populoso do planeta em direção à democracia. De infância pobre, vivida em favelas da capital, Jacarta, Widodo foi o primeiro líder indonésio eleito em votação popular e transparente após um século XX marcado em quase sua totalidade por governos autoritários comandando o país, com destaque para a forte repressão empreendida pelo general Suharto durante 30 anos. Entretanto, a política do atual presidente de combate feroz e sem limites às drogas, que inclui penas de morte sem qualquer contestação, mostra a necessidade do país evoluir principalmente no que diz respeito aos direitos humanos.
       Dois brasileiros fizeram parte da lista de traficantes de drogas condenados à morte e, em 2015, executados: Marco Archer, no mês de janeiro, e Rodrigo Gularte, na última terça-feira. Gularte e mais 7 prisioneiros de países como Nigéria, Austrália e Indonésia atravessaram sem volta o corredor da morte nesta semana. Poderiam ser 9, no total, caso a filipina Mary Jane Veloso não tivesse sua sentença adiada.
          Segundo o portal de notícias G1, Mary Jane foi flagrada, em 2010, no aeroporto de Jacarta, portando cerca de 2,5 Kg de heroína. Horas antes da execução, porém, uma mulher se entregou às autoridades policiais das Filipinas, afirmando fazer parte de um cartel de drogas e que enganou Mary Jane, ao colocar secretamente a droga na bagagem da vítima, que viajava à Indonésia em busca de trabalho. As investigações serão aprofundadas, mas casos como esse nos levam a ter perturbadoras dúvidas sobre a possibilidade de muitas pessoas inocentes terem sido condenadas à morte e não terem conseguido reverter a pena, como bem retrata o fantástico filme "À espera de um milagre".
Mesmo destino: Marco Archer
 e Rodrigo Gularte foram executados

       Os erros cometidos por Archer e Gularte são inquestionáveis já que os brasileiros confessaram participação em redes de comércio ilegal de entorpecentes visando ao dinheiro e prazeres intermináveis, assim como conheciam os riscos do tráfico. A cocaína vendida por eles, tanto quanto qualquer outra droga, é capaz de destruir famílias, amizades e vidas. Mesmo assim não há justificativas para que um Estado viole um direito fundamental de todo cidadão - a vida - não importa nacionalidade, religião entre outras variantes culturais.
       A pena de morte é legalizada na Indonésia e em outros países. A soberania de qualquer país deve ser respeitada. Por outro lado, é preciso ressaltar a existência de uma via de mão-dupla: qualquer Estado é responsável pela integridade e bem-estar de todos os cidadãos, inclusive daqueles que cometem crimes. Essas, portanto, são garantias invioláveis e que encontram respaldo na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. Apesar de serem muitas vezes atropelados e ignorados, os direitos humanos prezam, em sua concepção após a 2ª Guerra Mundial, pela redução de tensões e conflitos políticos, sociais e econômicos e pela dignidade humana.
       Por isso, sempre que possível, a ressocialização deve ser a primeira opção considerada por qualquer governo no que se refere ao tratamento de detentos, a partir de melhoras que envolvam desde infraestrutura de presídios ao combate ao preconceito na sociedade em relação a ex-presidiários. Não é por conta da realidade caótica encontrada no Brasil e em tantos outros países sobre essa e outras questões que a falsa sensação de justiça baseada no "olho por olho" deve prevalecer. Executar um traficante não deixa de ser uma "solução" rápida, de menos custos e, em resumo, mais "fácil", mas é, acima de tudo, indigna para o Estado Indonésio, que se iguala, neste contexto, a quem comete um homicídio.
       A reação mais favorável do que contrária dos brasileiros às execuções de Marco Archer e Rodrigo Gularte constatada nas redes sociais é lamentável, porém, um reflexo da crescente revolta da grande parte da população com a violência, da impunidade e da corrupção que assolam o Brasil. Combater esses problemas é o nosso desafio; desafio esse que provavelmente também faz parte do dia-a-dia de mais 249 milhões de pessoas no outro lado do mundo. Do seu jeito, Indonésia está reconstruindo seus pilares democráticos, e a extinção da pena de morte é um passo decisivo para o país deixar no passado o século XX, marcado por uma cultura de violência nas suas instituições e na sua população.

*Saiba mais sobre o tema!


                                                        Mattheus Reis

sábado, 25 de abril de 2015

Beco sem saída

                                 Erros no passado, consequências hoje.


Perigo: balsa acima da capacidade
atravessa o mar Mediterrâneo ilegalmente.
       O Mar Mediterrâneo está se transformando em um cemitério de desesperados imigrantes que buscam na fuga para a Europa de forma clandestina uma mudança de destino. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) aponta o alarmante dado de cerca de 1750 mortes já registradas em travessias que partem do norte da África em direção ao sul da Europa nestes primeiros quatro meses de 2015, número 30 vezes maior em relação ao mesmo período do ano passado. A combinação de esperança e perigo presente nessas travessias não é recente, apesar de as alarmantes e tristes mortes registradas em 2015 serem um forte indício da necessidade dos países europeus repensarem sua política migratória tanto para corrigir erros do passado quanto para salvar vidas.
       As causas desse êxodo em massa são conhecidas: a pobreza, a falta de oportunidades, as guerras entre diferentes etnias e tribos inseridas sob um mesmo território e, mais recentemente, o terror disseminado por grupos fundamentalistas islâmicos, como o Boko Haram, em algumas porções do continente africano. Todo esse cenário caótico e desalentador tem muitas das suas causas no período de colonização da África por potências européias.
       A ocupação e a divisão compulsórias e arbitrárias da África - durante a fase da história conhecida como Imperialismo, caracterizada pela exploração de recursos minerais e naturais, marginalização de minorias e o estímulo às guerras tribais - têm suas consequências vistas até hoje e relembradas a cada naufrágio, o mais recente deles ocorrido no último domingo, que vitimou cerca de 800 pessoas vindas de Somália, Sudão e Líbia, verdadeiros barris de pólvora.
       As nações europeias, atualmente, encontram-se em um verdadeiro dilema. Precisam de trabalhadores vindos de outros continentes por conta do progressivo envelhecimento e redução da sua mão-de-obra ativa. Por outro lado, as manifestações xenófobas, cada vez mais numerosas, frequentes e influentes na política do continente, estão conduzindo lideranças locais a implementarem medidas fortemente restritivas no que diz respeito à chegada de estrangeiros, principalmente, refugiados.
       A legislação mais dura sobre a imigração conduz, por sua vez, os refugiados a considerarem a travessia clandestina empreendida por traficantes a única forma de mudança de perspectiva. Está pronto, assim, o roteiro nada cinematográfico de uma tragédia. 
       Reunidos nessa semana em Bruxelas, capital da Bélgica e sede da União Europeia, líderes dos países membros do bloco buscaram, sem muitos avanços, iniciar um debate mais profundo sobre possíveis mudanças em politicas imigratórias da região a longo prazo. Reduzir restrições a entrada de refugiados seria um primeiro passo louvável, porém, ao mesmo tempo, capaz de gerar dúvidas acerca da possibilidade de um maior êxodo em direção ao continente. Outro ponto importante abrange a inclusão e a concessão de benefícios sociais aos refugiados a partir do momento em que passam a viver na Europa, evitando, assim, a marginalização e a segregação. Mas como fazer isso num momento em que os europeus ainda são vítimas de uma prolongada crise econômica cujo remédio é amargo: o corte de gastos? 
       Erros do passado sem correção definitiva criaram o triste roteiro de pessoas que se lançam em águas revoltas sem terem a certeza de que cumprirão promessas. Tragédias do tipo não podem ser negligenciadas: o exemplo de Ruanda ainda está vivo. Uma maior receptividade e solidariedade a quem precisa tanto quanto um esforço global para estabilização política e desenvolvimento sustentável da África são as soluções definitivas para reduzir a quantidade de travessias ilegais feitas diariamente no Mediterrâneo. A complexidade desse desafio, porém, impede que se possa assegurar que as próximas gerações testemunharão mudanças mais profundas.





*Leia mais sobre o assunto!
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150419_mediterraneo_cinco_razoes_fd
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/quase-2-000-imigrantes-ja-morreram-no-mediterraneo-em-2015


                                                                 Mattheus Reis

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bandeira branca

                                            Resposta à truculência
 


Reunião entre o secretário
de Estado americano J.Kerry e
o chanceler iraniano Javad Zarif.
       A Revolução Iraniana, em 1979, ergueu um muro que separou por muito tempo o Irã do ocidente. No final da última semana, porém, uma reaproximação importante foi efetivada com o objetivo de selar a paz após 36 anos de acusações e desconfianças mútuas, a partir da criação de um acordo prévio que reduz o potencial nuclear do Irã em troca de um gradual fim de sanções impostas pelos E.U.A. e por potências europeias, como Alemanha e França, que debilitaram nos últimos tempos a economia do "país dos Aiatolás".
       A derrubada do regime autoritário e alinhado aos interesses geopolíticos dos EUA e das potências europeias comandado pelo xá Reza Pahlevi, e a consequente ascensão de uma estrutura mais radical de poder, baseada nas leis islâmicas sob a tutela do Aiatolá Khomeini em 1979, gerou uma grave preocupação, na época, ao ocidente. A fusão das leis civis com as religiosas na constituição de um Estado Teocrático iraniano implicou a taxação do país como aliado do terrorismo nas décadas seguintes.
       A eleição, em 2013, de um novo presidente iraniano, mais moderado e disposto ao diálogo contribuiu para a pavimentação de uma trégua, também desejada pelo presidente americano Barack Obama. Ambos tinham muito mais a ganhar negociando do que em estado constante de tensão e rivalidade.
       Hassan Houani assumiu o comando do Irã já impactado pelas sanções impostas, que iam desde o boicote à compra de petróleo, seu principal produto de exportação, até restrições a iranianos de acessarem contas bancárias no exterior. Crises de desabastecimento de produtos básicos estavam sendo recorrentes e a inflação descontrolada geraram um sentimento de descontentamento por parte da população local, que, em sua maioria, exigia mudanças.
       Para contornar o desandar da economia, o governo do Irã se comprometeu a reduzir seu potencial energético nuclear, sobretudo no que se refere ao enriquecimento de urânio. É uma incógnita a real finalidade do projeto nuclear do país: se é destinado a intuitos pacíficos como o desenvolvimento de novos medicamentos e produtos químicos além de geração de energia elétrica ou se é voltado para a produção de armas nucleares, suspeita que sempre pairou durante os debates políticos internacionais sobre o tema.
       Independentemente da produção de armas nucleares pelo Irã ser verídica ou fruto de mais uma conspiração, esse acordo inicial firmado que ainda será aprofundado em novos encontros entre diplomatas e ministros de relações exteriores dos países envolvidos nessa longa e complexa negociação é, acima de tudo, uma medida preventiva a fim de proporcionar um mínimo de estabilidade ao Oriente Médio no momento em que o Estado Islâmico, as pertinentes tensões entre israelenses e palestinos, e a crise política que beira a guerra civil no Iêmen elevam o status da região ao de um barril de pólvora.
       O temor de uma arma de destruição de grandes proporções  - seja ela desenvolvida ou não pelo Irã - cair nas mãos de grupos extremistas e as catastróficas consequências disso não podem ser descartados. Houani e Obama possuem completa noção desse perigo. O diálogo, ao prevalecer, sobre a truculência e a irracionalidade é uma boa notícia e uma resposta em meio às recentes crueldades praticadas pelo fundamentalismo religioso.  
 
Leia mais sobre o assunto!
                             
                                                         Mattheus Reis  

sexta-feira, 13 de março de 2015

Lembre-se de outubro

                                                    As regras do jogo
    
       Inegavelmente o clima político no Brasil atravessa uma fase conturbada e de acirramento, em que é possível constatar uma divisão das opiniões públicas. As manifestações em apoio à Petrobrás que ocorrem em grandes cidades do país, hoje, e aquelas previstas para este domingo exigindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff apenas confirmam um tenso cenário, cujas causas revelam um misto de indignação em relação à condução do país pelo governo e aos escândalos de corrupção envolvendo a maior empresa da América Latina como também uma não aceitação de uma votação legítima, que esteve de acordo com a vontade popular. Mesmo assim, o direito de se expressar por parte da população é inviolável assim como a violência e o irracionalismo nas manifestações desse fim de semana não devem ser tolerados.
       O único processo de impeachment envolvendo presidentes da República pôs fim precocemente ao mandato de Fernando Collor, em 1992. Naquelas circunstâncias, denúncias sobre envolvimento direto de Collor em esquemas de corrupção criaram conjuntamente a uma grave crise econômica uma pressão popular respaldada pelos principais meios de comunicação do país para que o primeiro presidente eleito em votação popular depois de 29 anos fosse impedido de continuar no comando do governo.
       Embora as investigações decorrentes da operação Lava-Jato, responsável por investigar a engrenagem de corrupção na Petrobras, estejam longe de terminar, não há, até agora, indícios de envolvimento direto da presidente como participante ou beneficiária do esquema de fraude, diferentemente de duas décadas atrás, como pode se comprovar ausência de seu nome na lista de políticos a serem investigados, divulgada na semana passada pelos órgãos de investigação.
       Ainda assim, questiona-se o conhecimento e a omissão de Dilma Rousseff  quanto aos desvios de verba pública enquanto ocupava os cargos de chefe do conselho de administração da empresa e, posteriormente, de ministra de Minas e Energia durante o governo Lula. Mesmo que tal omissão exista, ela somente poderá ser apurada após a presidente terminar seu mandato já que não foi uma violação cometida durante o exercício do cargo de chefe de Estado. Ser investigado não é sinônimo de culpado e, até o final das investigações, ninguém pode ser taxado de criminoso. Por mais que a lei possua suas brechas e contradições, algo que não é exclusivo do Brasil, e a justiça seja marcada pela lentidão, a continuidade do governo da presidente Dilma tem respaldo jurídico. O respeito às normas jurídicas são fundamentais para a manutenção da estabilidade política do país e o povo brasileiro sabe o quanto foi difícil ter o mínimo de estabilidade democrática após 21 longos anos de Ditadura Militar, quando a violação aos direitos humanos, o abuso de poder e a coação ditavam as regras.
       Não há dúvidas que o PT frustrou expectativas daqueles que o levaram ao poder a partir de 2002 com a eleição de Lula. O partido adotava um discurso até então coerente, de primor pela ética, de ser "diferente dos outros". Entretanto, os esquemas de corrupção evidenciados a partir do mensalão mostraram que o partido é apenas "mais do mesmo". Por outro lado, o impeachment é algo muito pequeno perto das necessidades urgentes de combater uma cultura de corrupção no país que afeta dos partidos políticos ao cidadão que suborna o policial na blitz; e mais insignificante ainda se não há motivos concretos para o propor. Tão importante quanto respeitar o direito dos cidadãos de manifestar sua justa indignação é respeitar outro valor fundamental: a vontade popular que reelegeu Dilma Rousseff em outubro do ano passado.
       É preciso reconhecer a impaciência do cidadão pela demora por mudanças mais profundas, mas Dilma está apenas no terceiro mês de seu segundo mandato. Caso ela consiga contornar a estagnação econômica do país, melhorar a qualidade de vida da população e combater a corrupção, seu partido tem o direito de receber uma nova chance. Caso contrário, poderemos escolher novas opções em 2018. É assim que o jogo funciona e, pode ter certeza, é o melhor caminho até agora que a humanidade encontrou. Pode ser lento, pode ser frustrante, mas é o melhor possível. Nosso papel é cada vez mais ter consciência na escolha de candidatos mais comprometidos com o bem-estar comum.
      
*Leia mais sobre o assunto
http://gabrielmarques.jusbrasil.com.br/artigos/172450520/o-que-e-impeachment
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150309_dilma_impeachment_base_rm


                                                          Mattheus Reis

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Novo eldorado

                                        Uma jogada não tão segura.
      
Estrelas: Ricardo Goulart e Tardelli,
destaques da próxima temporada na China
       Dois dos principais jogadores que atuavam nos gramados brasileiros deixaram o país no último mês para defender clubes do exterior. Algo à princípio rotineiro já que o Brasil se inseriu na lógica econômica do futebol como um exportador de atletas cada vez mais jovens e sem experiência adequada, sobretudo para o continente europeu nas últimas décadas. Ricardo Goulart, ex-meio campista do Cruzeiro e Diego Tardelli, ex-atacante do Atlético-MG, tiveram um destino semelhante, foram negociados pelos seus até então clubes, porém, optaram por um caminho alternativo, desafiador, mas, ao mesmo tempo, financeiramente tentador: a rota para a China.  
       A globalização, processo socioeconômico cujo carro-chefe caracteriza-se pela evolução das tecnologias de comunicação e de informação, permitiu aos dirigentes e jornalistas esportivos estarem a par sobre o que está acontecendo nos principais campeonatos do mundo e seus principais destaques. Como exemplo, a tv a cabo e a internet são imprescindíveis para que aqui, no Brasil, possamos acompanhar os torneios do futebol europeu em tempo real. Seja na Europa, na China ou no oriente médio, a lógica é, no mínimo, semelhante.
       Se, por um lado, o futebol brasileiro provavelmente não possui mais tamanhas notoriedade e qualidade dos anos em que Romário, Roberto Carlos, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano eram os protagonistas dos maiores clubes europeus, ele ainda é prestigiado em 'áreas periféricas', como a China. E, desde o início da década, uma leva cada vez mais numerosa de jogadores brasileiros segue para o maior mercado consumidor do mundo, atraídos por uma grandiosa empreitada estimulada principalmente pelo governo chinês com o intuito de expandir a prática do esporte mais popular da Terra naquele país.
       Após um período conturbado de crise econômica e pressão sobre o governo de Mao Tsé-Tung, a China promoveu uma política de modernizações econômicas, ao estimular a chegada de novos investimentos vindos de multinacionais e de outras empresas do exterior durante os anos 1970, mas sem abrir mão totalmente da política socialista. Novas empresas instalaram sua estrutura de produção nas principais metrópoles chinesas, atraíram um imenso contingente de trabalhadores do campo em busca de melhores salários e maiores oportunidades; o ramo da construção civil viveu uma fase de aquecimento a fim de acomodar o intenso êxodo-rural, o consumo de grande parte da população aumentou e o país decolou: sua economia alcançou o posto de 2ª maior do planeta, atrás apenas da dos E.U.A..
       O futebol local também é afetado positivamente por essa expansão embora os desafios ainda sejam grandes. A maioria dos clubes de futebol chineses recebem pesados investimentos e/ou são propriedade do governo ou de companhias estatais. Tais investimentos acabam sendo direcionados em maior parte à contratação de nomes consagrados do futebol mundial mesmo que não estejam mais atravessando uma fase de auge, como o atacante francês Anelka, com a finalidade de mobilizar novos fãs. As propostas, envolvendo cifras milionárias, se tornam praticamente irrecusáveis àqueles atletas que buscam certa estabilidade financeira.
       Não se deve negar, por outro lado, os risco de um negócio, à primeira vista, excepcional. Tardelli enfrentou e ultrapassou adversidades durante aproximadamente 10 longos anos de carreira até, finalmente, conquistar títulos de expressão, como a Libertadores da América e a Copa do Brasil, e conquistar espaço no time titular da seleção brasileira. Goulart, por sua vez, estava frequentemente nas listas de convocação do técnico Dunga e atuando em alto nível no elenco do atual bicampeão nacional Cruzeiro. Há um consenso em torno das deficiências técnicas apresentadas pelo futebol chinês, de pouca expressão no cenário mundial e que se classificou para uma Copa do Mundo em apenas uma oportunidade na história, em 2002. Ao priorizarem a questão financeira, decisão difícil e que precisa ser respeitada, Tardelli e Goulart podem sofrer uma queda de desempenho e não corresponder às expectativas criadas por especialistas, treinadores e torcedores. Quem perde é a seleção brasileira, escassa de craques e que poderia se beneficiar do talento dos dois. 


*Leia mais sobre o assunto!
http://oglobo.globo.com/esportes/futebol-chines-vira-novo-eldorado-para-jogadores-do-brasil-15144357
                                                     
                                                               Mattheus Reis
      

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Dura missão

                    Uma empresa ainda digna de crédito                          




Desafiante: conseguirá Bendine
ajudar a pôr tudo em ordem?
       A presidente Dilma Rousseff conjuntamente com membros do Conselho de administração da Petrobras nomeou Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, como o novo presidente da empresa, cuja reputação e situação financeira deterioraram-se após a deflagração da Operação Lava-jato, responsável pela investigação de denúncias cada vez mais verídicas referentes às práticas ilícitas e fraudes fiscais que envolviam diretores da companhia, empresários do ramo da construção civil, e funcionários e políticos de partidos da base aliada do governo, como o PT, PMDB e PP, bem como do PSB, legenda pertencente à oposição.
       Obras relacionadas à infraestrutura energética do país e nas quais havia participação da Petrobras, como refinarias, usinas e gasodutos, eram superfaturadas, ou seja, seus custos declarados pelas empreiteiras eram ilegalmente superiores aos previstos nos orçamentos. Os contratos, de valores altíssimos, tanto enriqueceram os empresários do ramo como eram destinados, em parte, aos diretores da Petrobrás envolvidos no esquema de corrupção. Em troca, as empreiteiras receberiam antecipadamente informações privilegiadas sobre novos projetos e, principalmente, seriam responsáveis pela execução de tais obras. A situação chegou ao ponto de somente as construtoras que pagassem propina - que oscilava entre R$ 50 milhões e R$150 milhões por contrato - poderiam participar das obras. Formou-se um cartel, um "clube", do qual participavam a OAS, Odebrecht, Camargo Correa entre outras. Nas mãos dos diretores, o dinheiro nutria campanhas eleitorais de políticos cujos nomes não foram divulgados oficialmente, porém, são conhecidos pelos investigadores e mantidos em sigilo já que alguns membros do esquema de corrupção, como o ex-diretor da área de abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, optaram por detalha-lo em depoimentos na justiça em troca de redução da pena em uma eventual e posterior condenação, acordo denominado "delação premiada". Da forma mais didática e objetiva possível essa é a engrenagem que movia a corrupção na estatal há pelo menos 10 anos.
          Por conta das investigações que apontam para um enorme rombo nos cofres públicos, a diretoria comandada até então pela presidente da Petrobras Graça Foster, mergulhou em uma crise de credibilidade. Independentemente de estar ou não envolvida, Foster admitiu não ter mais condições emocionais e administrativas para continuar sua gestão, que começou em meados de 2012. Membros do alto escalão  também foram substituídos. Estimam-se perdas totais de R$ 88 bilhões de verba pública ocasionadas pela corrupção e gestão ineficiente.  A Petrobrás desde 2008 acumula sucessivas quedas em seu valor de mercado - de R$ 510 bi. passou a valer cerca de R$ 116 bi. atualmente segundo o jornal 'Folha de São Paulo' e a consultoria 'Economática'.
       Outra questão importante e com força para abalar a Petrobrás tanto quanto os supostos R$ 88 bi desviados diz respeito à tendência de queda do preço do barril de petróleo apresentada no último ano e que continua até agora. A partir dessa constatação inúmeras causas são plausíveis: maior oferta do produto possibilitada pela descoberta e exploração do Pré-sal e dos campos de xisto, nos EUA, a redução do consumo na Europa, afetada pela crise econômica desde 2011, e o declínio do crescimento da economia chinesa nos últimos 3 anosomando-se às pressões internacionais para que Pequim adote políticas e fontes energéticas menos poluentes. O cenário global atual não está favorável à indústria petrolífera e a empresa brasileira, consequentemente, arrecadará menos na exportação da commodity
       Enfrentar a queda de credibilidade, reerguer a maior empresa da América Latina a partir de menores recursos e afasta-la rastro da corrupção são os desafios mais emergentes da gestão de Bendini.
       Em situações de adversidade como a atual, a Petrobras acaba tornando-se alvo de uma questão já debatida anteriormente no governo FHC, porém persistente em alguns setores políticos e da sociedade: a sua privatização. Um dos candidatos à presidência da República na última eleição, o pastor Everaldo Pereira, do PSC, defendeu a venda da empresa sob o argumento de varrer a corrupção para longe das estruturas de governo. A atuação cúmplice de donos de construtoras nesse esquema, intitulado tendenciosamente de 'petrolão' e que gradativamente é desvendado pelos órgãos investigativos, mostra que o setor privado não é um oásis aonde a ética e a lisura se abrigam da lavagem de dinheiro, evasão de divisas, superfaturamento... Os crimes de "colarinho branco" não são cometidos pelas empresas, e sim por quem as administra. Os corruptos estão no setor público e no privado, nos governos do PT e do PSDB, e isso não é novidade para ninguém. 
       O cidadão brasileiro precisa ter conhecimento sobre a importância da Petrobras para a economia nacional e da sua atuação de ponta em segmentos da indústria petrolífera. Seu quadro técnico, isto é, a imensa equipe de cientistas, geólogos e engenheiros é uma das mais requisitadas e competentes do mundo, sobretudo em relação à extração de petróleo e de gás em águas profundas. Inúmeros projetos científicos e de investimento na matriz energética nacional são desenvolvidos por ela e a participação majoritária do Estado Brasileiro nas suas ações implica em que a maior parte da lucratividade da empresa possa ser reinvestida no país.
          Obviamente, a operação Lava-Jato tem mostrado que parte destes recursos, destinados ao desenvolvimento da nação, foram desviados durante anos. Não podemos negar que o PT falhou tanto em questões éticas quanto de planejamento em seus 12 anos de poder, contribuindo para que a esperança depositada no partido em 2002 fosse, em parte, frustrada. Por outro lado, o tema "privatização da Petrobrás" é uma questão de Estado, e não partidária. Seja com o PSDB, o PT ou qualquer outro partido à frente do comando do país, a maior empresa da América Latina deve servir ao povo brasileiro e, para isso, a investigação, a boa gestão e a transparência são fundamentais. A sua venda a qualquer grupo empresarial do ramo de energia pode ameaçar a continuidade de projetos e investimentos voltados para a economia brasileira, podendo serem direcionados para outras áreas de atuação onde haja maior interesse financeiro.  A privatização é abordada, muitas vezes, como uma solução mais prática. Nem sempre o melhor caminho é aquele menos sinuoso, ainda mais quando está em jogo a estabilidade de uma economia como a do Brasil, a sétima maior do planeta.





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