segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Terra agradece.

                                  Uma nova chance.                                    


Em nossas mãos: o futuro das próximas
gerações foi discutido na COP-21 e o desfecho
 das negociações em Paris foi positivo  
       Após bastante tempo perdido, as lideranças políticas mundiais ouviram com maior interesse e preocupação o clamor de nosso planeta por socorro. A demora em estabelecer um conjunto de medidas eficazes de redução dos efeitos do aquecimento global nos tornou mais vulneráveis a fenômenos extremos, como severas tempestades e estiagens, e por conta disso a geração atual está sofrendo as consequências dos erros do passado. Porém, quando um passo importante é dado com a finalidade de reverter esse preocupante quadro, não podemos deixar de celebrar: nunca antes na história, tantas nações (195) comprometeram-se a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa, na 21ª Conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP-21), que terminou no último sábado, em Paris.
       Desde as discussões sobre a elaboração do Protocolo de Kyoto, em 1997, a Organização das Nações Unidas tentava emplacar um acordo desse porte. Na época, a rejeição ao tratado ambiental pelo congresso dos EUA, maior poluidor mundial, minou o estabelecimento de metas mais ambiciosas a curto prazo. A partir do mandato do presidente Barack Obama, a sustentabilidade passou a ter maior espaço em seu governo, mas isso não foi o bastante para avanços significativos serem alcançados nas Conferências de Copenhagen, em 2009, e da Rio+20, em 2012.
       Agora, outros grandes poluidores mundiais, como China, India e as potências europeias enfatizaram maior comprometimento com a causa ambiental e o chamado "Acordo de Paris" se concretizou; um documento longe da perfeição, mas de bom tamanho para o início de uma mudança. Ficou definido que os países mais desenvolvidos terão metas mais exigentes de redução das emissões já que, juntos, contribuem para mais de 2/3 da poluição atmosférica do planeta segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio-ambiente (PNUMA). Além disso, doarão, anualmente, pelo menos U$$ 100 Bi. destinados ao desenvolvimento de projetos sustentáveis e de energia limpa nos países pobres. Cada país inserido no grupo dos emergentes e subdesenvolvidos, por sua vez, apresentou voluntariamente um conjunto de medidas para diminuir sua "pegada de carbono", de acordo com suas respectivas capacidades econômicas, cujo andamento será analisado e fiscalizado pelo PNUMA a cada 5 anos. Um fundo de socorro e prevenção de tragédias climáticas também será criado.
       Todas essas iniciativas serão cumpridas a partir de 2020 e espera-se, como resultado, um crescimento de, no máximo, 1,5ºC na média da temperatura global. Membros do PNUMA e do Greenpeace, no entanto, estão céticos . De acordo com as projeções realizadas por essas organizações, mesmo com o investimento anunciado a temperatura média global aumentará em 2,7ºC. Se nada fosse proposto, essa média cresceria em até 4,8ºC.
       Independentemente se as metas serão cumpridas ou não, o mais importante é a manutenção do diálogo e da cobrança. O momento é ainda de recuperação nas economias mais desenvolvidas do mundo, e, provavelmente, uma ajuda mais generosa pode ser anunciada futuramente. A "economia verde" pode gerar inúmeros empregos, e cabe, a partir de agora, a todos os países comprometidos garantir condições aos negócios ligados à sustentabilidade serem competitivos e rentáveis. Grande parte dos consumidores apoiam produtos ecologicamente responsáveis, mas o preço ainda pouco atrativo impede o crescimento desse setor no mercado.
       Embora precise avançar em muitos aspectos, o Brasil possui uma das mais ambiciosas metas de preservação do meio-ambiente e conseguiu resultados expressivos nos últimos anos: reduziu suas emissões de gases causadores do efeito estufa em 75% e a degradação Amazônia caiu 40% nos últimos 11 anos, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de ter iniciado recentemente um projeto de expansão das fontes renováveis de energia. Por outro lado, a fiscalização sobre o agronegócio, principal responsável pelo desmatamento no país, e o estímulo ao desenvolvimento de biocombustíveis são os desafios a serem cumpridos na onda das decisões tomadas em Paris. 
      O fato do Acordo de Paris ter o apoio de tantos países é uma boa notícia neste final de ano.  A humanidade ganhou mais uma chance para se salvar. A Terra agradece. A sustentabilidade é fundamental não apenas por conta da preservação da natureza, mas também por promover a qualidade de vida, mais oportunidades e evitar possíveis conflitos políticos causados por escassez de recursos naturais. A partir de agora, em que as promessas já foram feitas, aguardamos ansiosamente o discurso se transformar em ações concretas. Por enquanto, estamos indo na direção certa. Já dá para perceber que o céu está até mais limpo, não acham? 

Leia mais sobre o assunto:



                                                             Mattheus Reis

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Time 6 estrelas

                                              Na conta do 'professor'.



Jogadores e o técnico Tite do Corinthians comemoram título do Brasileirão 2015 após a partida entre Vasco RJ e Corinthians SP válida pela Série A do Campeonato Brasileiro 2015 no Estádio São Januário no Rio de Janeiro (RJ), nesta quinta-feira (19)
 "Obrigado, 'professor'": abraçado pelo meia
 Lucca, Tite encerra 2015 comemorando
mais um título importante na sua carreira.
       Muitos não acreditam em numerologia, mas o "6" está presente de forma marcante neste fim de temporada glorioso para o campeão brasileiro de 2015. Mesmo empatando no Rio de Janeiro, ontem, contra o desesperado, mas valente, Vasco da Gama, a vitória do São Paulo contra o vice-líder Atlético-MG garantiu o hexacampeonato nacional ao Corinthians. Cássio, Gil, Elias, Jadson, Renato Augusto e Vagner Love transformaram-se, ao longo do ano, em 6 nomes decisivos dentro de campo para a conquista. No entanto, a estrela de maior brilho relutava em não querer assumir seu protagonismo: o 6° título de Tite à frente da equipe paulista só vem a confirmar a opinião daqueles que o apontam como o melhor treinador do país. 
       O hexa será ainda mais valorizado pelo torcedor caso o início de 2015, marcado pela crise financeira no clube e por duros golpes como a eliminação precoce da Libertadores da América, seja lembrado. Sem dinheiro, sobretudo por conta dos gastos exorbitantes com a construção da Arena de Itaquera, o Corinthians precisou arrecadar mais, e, para isso, se desfez de importantes jogadores, dentre eles Paolo Guerrero e Emerson Sheik.
       Se não fosse o apoio incondicional do torcedor, que, às vezes, beira a loucura, o rombo nos cofres seria ainda maior. Com a maior média de público do ano, até agora, o estádio construído para a Copa do Mundo de 2014 é, atualmente, um alçapão letal para os adversários. Na primeira temporada completa jogando na sua nova casa, o Corinthians obteve o melhor aproveitamento de um mandante na era dos pontos corridos no Brasileirão: 89,6% dos pontos disputados foram conquistados no bairro mais corintiano da cidade de São Paulo. Por lá foram realizadas 16 partidas, com 14 vitórias, 1 empate e 1 derrota. Nada mais verdadeiro dizer que "caiu em Itaquera, já era", "caiu em Itaquera, é hexa".
       Esses números foram alcançados em grande parte porque o Corinthians tinha o cara certo para driblar os problemas, pelo menos dentro das quatro linhas. Apesar das dificuldades causadas pela perda de importantes jogadores no meio do ano, Tite soube explorar ao máximo as características particulares de cada jogador do elenco, remontou um time entrosado e, como consequência de sua inteligência tática, foi o responsável pelo renascimento de Jadson, Renato Augusto e Vagner Love, atletas de habilidade reconhecida, mas que, por conta de lesões e falta de entrosamento e de confiança, não jogavam um futebol de alto nível há bastante tempo.
       Diferentemente da sua passagem anterior e também vitoriosa pelo Corinthians, entre 2010 e 2013, quando montou uma equipe muito mais eficiente do que encantadora em campo, Tite priorizou, dessa vez, um time rápido e criativo ofensivamente, sem se descuidar da parte defensiva. Os números, neste caso, comprovam o equilíbrio: o hexacampeão brasileiro tem a zaga menos vazada ( 27 gols sofridos) e o ataque mais goleador ( 64 gols marcados) do campeonato.
       Com esse atual estilo de jogo adotado, o técnico gaúcho deixa seus jogadores atualizados em relação às novas tendências táticas do futebol praticado nos principais torneios do mundo, e as recentes convocações de Cássio, Elias e Renato Augusto para a seleção principal e a do jovem Malcom para a seleção olímpica são difíceis de serem contestadas.
         A base do Corinthians pode ter um papel importante na difícil tarefa da seleção brasileira de se classificar para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Para alguns, entretanto, é preciso ir além e mudar o comando técnico. Tite seria a aposta de muitos. Embora a desconfiança sobre Dunga seja justificável, a pressão por sua demissão pela imprensa ou pelos torcedores mais atrapalha do que ajuda na retomada do futebol brasileiro aos seus tempos de prestígio no planeta "Bola". Não se pode negar, porém, que o técnico mais vitorioso do futebol brasileiro nesta década está merecendo essa oportunidade mesmo que ela não chegue agora.

Leia mais sobre o hexacampeonato nacional do Corinthians:
http://m.trivela.uol.com.br/tite-superou-as-tempestades-e-fez-do-corinthians-um-campeao-brasileiro-ofensivo/


                                                           Mattheus Reis     













segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Existe uma saída?

                O pesadelo do terror retorna a Paris.


Preces: parisienses fazem uma corrente de oração
em um dos alvos de ataques na última sexta-feira.
       Onze meses depois do atentado contra a sede do jornal satírico Charlie Hebdo, Paris revive dolorosamente o pesadelo causado pelo terror. Uma série de ataques coordenados em pelo menos 6 áreas da capital francesa deixou uma centena de mortos. O Estado Islâmico, que reivindicou a autoria das ações bárbaras de sexta-feira passada, é também o responsável por elevar o nível de organização, influência e crueldade do terrorismo contemporâneo, o que exige, por sua vez, estratégias mais eficazes de desestabilização do grupo. Quem pensa, porém, que mais tiros são sinônimos de maior paz no mundo está enganado.
       EUA, França e nações árabes como a Arábia Saudita se articularam, no início de 2015, em torno de uma ofensiva aérea para destruir instalações e bases de treinamento do Estado Islâmico na Síria, uma estratégia bem conhecida, utilizada em outros confrontos, e duvidosa. Barack Obama afirmou, na última semana, que o EI perdera força, não avançando territorialmente. O ataque a Paris foi, entretanto, um indício de uma comemoração antecipada e equivocada do presidente americano.
       Já passou pela sua cabeça questionar quantas pessoas inocentes morreram seja por mísseis disparados de drones ou por incursões militares terrestres neste barril de pólvora chamado Oriente Médio? Extremistas costumam se fixar em locais densamente povoados, e, neste cenário marcado pela influência radical posta em prática por uma minoria muçulmana que distorce a religião, uma criança que testemunha sua família, de bem, sendo equivocadamente dizimada por uma bomba pode ter sua vida transformada para o mal. Está aí uma das formais de nascimento de um terrorista; é tudo que a jihad quer. Em escala quase industrial, a reposição de "mártires" acontece.
       O combate é necessário. No entanto, precisa ser executado de maneira mais inteligente para reduzir os danos ao máximo. Em tempos de globalização, o Estado Islâmico é o que melhor soube aproveitar ferramentas massivamente exploradas pela cultura ocidental na divulgação de valores, como a liberdade e o consumo: a mídia. Uma "arma" que, agora, é usada contra os seus próprios inventores. Com a internet, a retórica do terror se tornou mais ampla e atraiu jovens, a maioria deles imigrantes árabes ou de descendência árabe, cuja situação socioeconômica na Europa é caracterizada pela marginalização e pelo preconceito. O controle a esse tipo de conteúdo é muito pequeno e permissivo na grande rede de computadores.
       Mais crucial ainda do que uma vigilância maior sobre a internet e outros meios de comunicação pelos serviços de inteligência mundiais é uma transição política que traga estabilidade real à Síria, onde o Estado Islâmico fincou raízes em meio ao caos e se aproveitando do vazio de poder local.
       Desde 2011, quando a Primavera Árabe trouxe ares de esperança que não se confirmaram totalmente, o presidente sírio Bashar al-Assad, acusado de ter cometido inúmeras violações aos direitos humanos, não consegue e não quer controlar o país, retalhado por milícias pró e contra a sua deposição e por organizações fundamentalistas islâmicas. As potências ocidentais ainda têm dúvidas se as sobras de relevância política de Assad ajudam ou atrapalham, e, enquanto isso, cada vez mais sírios são obrigados a se aventurarem em uma jornada de alto risco rumo a uma Europa que desmente as visões de civilidade tão atribuídas ao continente, cada vez mais intolerante com imigrantes pobres.
         Combater o terrorismo não deixa de ser uma façanha já que, quanto mais atacado, mais extremista ele se torna. Em certos momentos, esse ódio acumulado explode de forma desmedida, como é o caso do EI, cujas execuções brutais são condenadas até mesmo por outros grupos terroristas. O fato de Paris - berço da Revolução Francesa e dos princípios básicos da civilização ocidental - ser a metrópole mais atingida nos últimos 12 meses pelo terror não deixa de ser um claro sinal para pensarmos se tais valores, como liberdade, igualdade e fraternidade, estão sendo devidamente praticados no século XXI. Mesmo em um momento de comoção, não podem ser levadas adiante atitudes precipitadas e que possam causar mais derramamento de sangue.
      
      

*Não se esqueça também daqueles que passam por dificuldades causadas pelo mar de lama em Mariana (MG)! Devemos prestar solidariedade  ao próximo, sobretudo àqueles mais próximos de nós.


                                                             Mattheus Reis

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Favela: onde a exceção vira regra.

A jornalista Carla Rocha faz uma análise bem clara de um episódio que, por mais acidental que tenha acontecido, não poderia ficar impune. No texto a seguir, publicado no jornal "O Globo", em 7 de novembro, é abordada a morte do estudante Eduardo de Jesus, de 10 anos, em um confronto entre policiais e traficantes no complexo do Alemão. Boa leitura e boa reflexão.                                                         

                                                  Licença para matar

       Que falta de punição alimenta a impunidade, todo mundo repete desde que o mundo é mundo. Mas a injustiça é muito mais perversa, é uma facada no coração, é o câncer do tecido social. A injustiça gera um sentimento mais complexo e destruidor porque tem alcance coletivo, sai do âmbito particular para apodrecer o mundo. É coisa grave, devasta tudo, vai levando por onde passa do cocô do cachorro às instituições mais sólidas. O bizarro desfecho do inquérito policial sobre o caso de Eduardo de Jesus, de 10 anos, morto por PMs no Alemão, é uma bomba atômica com alto poder de destruição, que deveria preocupar até mais a própria polícia do que as ONGs de direitos humanos, porque ela, a polícia, tem muito, muito mais a perder.
       Vai ser a primeira vez que um auto de resistência atingiu a cabeça de um menino inocente na forma de uma bala de fuzil. O resumo da ópera é surreal. Eduardo morreu, sim, um PM atirou na cabeça dele, sim, mas ninguém matou, não. Ou melhor: matou, mas não matou com vontade, com gosto, para ser submetido à lei. Ou: matou, mas quem mandou o garoto estar ali em meio a um confronto entre PMs e traficantes? Ou: matou, mas vai ficar por isso, porque a vida é dura aqui nos trópicos, e o policial vai ali tratar o trauma, às nossas expensas, que agora pagamos para ele trucidar criancinhas, e logo estará de volta às ruas.
       Foi dada uma licença para matar. Já vi investigações que não deram em nada — estamos longe de ter um CSI. Mas nunca vi um crime constatado, com prova técnica, de repente, não ser um crime. Tem corpo, sabe-se de onde partiu o tiro, mas é como se Eduardo tivesse se autoaniquilado. Podemos aceitar então que ele foi vítima da desigualdade social. Terá sido o maior crime do capitalismo desde sua criação. Em última análise, foi o capitalismo que o matou, ao dividir a sociedade entre pobres e ricos. E os capitalistas podem empurrar a responsabilidade para a sorte, essa megera, que o matou ao jogá-lo no lado pobre da força. Se tivesse sido vítima no Leblon, o inquérito teria tomado outro rumo. Atire a primeira pedra quem duvida. E ninguém desejaria que isso acontecesse em qualquer canto da cidade, amamos todos eles, é bom pontuar.
       Não acho que o policial saiu de casa com sede de sangue, disposto a estourar a cabeça da primeira criança que passasse na sua frente. A bem da verdade, o que passava pela cabeça dele pouco importa, não estamos em busca de um demônio para queimar na fogueira da Inquisição. Mas, se um PM matou um cidadão, ainda que por imperícia, deve responder pelo crime que cometeu. Se vai ou não ser condenado e, se condenado, a quantos anos, não sabemos. Mas, ao menos, deveria ser levado a um tribunal, em que testemunhas seriam ouvidas, provas apresentadas e defesas ouvidas. E não a um divã para expiar sua culpa.
       O grande mal da injustiça é que ela vai quebrando resistências, ampliando limites — até que não os enxergamos mais — e transformando o inadmissível em algo tolerável, sob certas circunstâncias. Essa é uma defesa da criança que foi morta? Óbvio que é. Mas isso é o óbvio. E tão importante quanto o fato de que outras vidas estão e estarão em jogo, a prevalecer essa lógica da “legítima defesa” como salvo-conduto para matar gente inocente. É uma defesa, menos óbvia, da polícia-cidadã, que tem que sair do imaginário carioca, das rodas acadêmicas e do discurso da autoridade para as ruas.
       A injustiça virou o personagem principal da triste e curta história de vida de Eduardo. A mãe, Terezinha, derrama suas lágrimas há meses, não há reparação para sua dor, que pode ser no máximo amenizada com a punição dos responsáveis pela sua perda. E temos a obrigação de, ao menos, dar dignidade a seu intenso sofrimento. Para todos nós, que não somos pais do Dudu, mas somos pais de alguém ou filhos de alguém, ainda há esperança, se não ficarmos paralisados, atônitos e chocados diante da desgraça do outro. Porque o outro é o nosso espelho, no Alemão ou no Leblon. O poder devastador da injustiça está exposto, em toda a sua plenitude, no assassinato de Eduardo. Como já disse, há muitos anos, Rui Barbosa, mais atual do que nunca: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

domingo, 25 de outubro de 2015

Sonho realizado


                             Ser veloz não é o bastante


Casamento perfeito: Hamilton agradece ao carro
 por realizar o sonho de ser tricampeão mundial.
       Ele sempre declarou seu fascínio por Ayrton Senna e o seu sonho era o de, um dia, igualar os feitos do brasileiro. Lewis Hamilton sabe que ninguém conseguirá por fim ao reinado do tricampeão mundial de Fórmula-1, uma unanimidade entre os fãs da velocidade. Hoje, no entanto, o piloto inglês ficou mais próximo de seu grande ídolo de infância. Hamilton, agora, também é tri, assim como Senna. A realização do sonho veio com a vitória no Grande Prêmio dos EUA. Com três corridas de antecedência, tivemos a confirmação de que o ano de 2015 já estava reservado para o sucesso do dono do perfeito carro número 44.
       Mesmo tendo como compatriotas os lendários Nigel Mansell, James Hunt e Jack Brabham - todos eles também campeões mundiais - Hamilton é o inglês mais vitorioso da Fórmula-1.  Com 43 triunfos em 8 anos de carreira, só está atrás do francês Alain Prost (51 vitórias) e do alemão Michael Schumacher (91 vitórias).
       O fato do campeonato ter se definido com tamanha antecedência tem, a princípio dois motivos: não dá para negar o trabalho e o planejamento desempenhados de forma excepcional por Hamilton e por sua equipe, a Mercedes, durante todo o ano; por outro lado, isso é reflexo da desigualdade enorme de orçamento entre as scuderias. Enquanto Ferrari e Mercedes, as únicas equipes que venceram corridas nesta temporada, dispuseram, cada uma, de uma quantia de mais de 400 milhões de euros, a Marussia, tida como o time mais frágil da categoria se esforçou para montar um carro com aproximadamente 83 milhões de euros de acordo com a revista especializada AutoRacing. A falta de competitividade e de emoção foram visíveis em algumas corridas, o que é um sinal de alerta para eventuais mudanças nas regras o mais breve possível em busca de maior equilíbrio.
       A geração atual de pilotos é a melhor desde aquela que marcou o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, quando Senna, Prost, Piquet, Mansell e o ainda novato M.Schumacher rasgavam o asfalto e travavam disputas memoráveis. Em 2015, Alonso, Button, Raikkonen, Vettel e Hamilton somam 11 títulos mundiais, algo raro de se ver. Todos esses pilotos da atual Fórmula-1 já demonstraram competência e habilidade, mas somente o recém-tricampeão teve condições de brilhar: um desperdício de talento que afasta os fãs. Os carros da Mercedes fizeram jus ao apelido de "flechas prateadas" e voaram; os outros apenas correram.       
       O debate para mudanças costuma ser lento e feroz. Quem tem dinheiro e está ganhando as provas resiste; quem deseja vencer, mas não consegue, exige alternativas. Para 2016, alterações mais significativas e que poderiam acarretar em mais ultrapassagens e diferentes estratégias, como o retorno do abastecimento durante as corridas e a entrada de mais empresas fabricantes de pneus, estão descartadas.
       Não deixa de ser frustrante ver que o mais difícil de acontecer - a formação de uma geração brilhante de pilotos - acaba sendo ofuscado pela falta de consenso e por interesses particulares que estão longe de desenvolver o esporte. A Fórmula-1 cresceu em altíssima velocidade nas últimas décadas, emissoras de mais de 150 países transmitem as corridas, o calendário se expandiu para outros continentes além da Europa, mas a sensação é a de que o motor engasgou, a audiência está caindo e a magia, se perdendo.
       A culpa não é de Hamilton. Ele é um resquício da magia; é habilidoso, ousado, e isso é o que queremos ver nas manhãs de domingo. Um piloto cujo fã é simplesmente Ayrton Senna já nasce com DNA de campeão. Entretanto, isso já não parece ser suficiente, hoje, para que os brasileiros voltem a acompanhar com o interesse de anos atrás a elite do automobilismo.   



*Leia mais sobre a conquista de Lewis Hamilton:



                                                                Mattheus Reis


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dois vilões

O texto a seguir foi escrito pela colunista do jornal "O Globo" Márcia Vieira, publicado na edição de 03 de outubro de 2015 e disponível em sua versão original em:
                
                                      Que PM é essa?
 
"Quem irá nos defender?": falta de estrutura, abusos,
 preconceitos e corrupção subvertem a função social
 da polícia militar no RJ e no Brasil.
       A Polícia Militar ocupou violentamente a alma do carioca esta semana. A sequência de atos dramáticos recentes começou com o assassinato de Bruno Rodrigues, policial da UPP da Formiga, torturado e arrastado por um cavalo até a morte em Nova Iguaçu. Dois dias depois, a face mais abominável da secular corporação foi exposta no vídeo do presumível assassinato do jovem Eduardo Felipe dos Santos, de 17 anos, no Morro da Providência, seguido da adulteração da cena do crime, cometida por cinco PMs. A selvageria prosseguiu com a morte de Caio César de Mello, 27 anos, numa troca de tiros, às 11 horas, no Complexo do Alemão. Sua morte ganhou repercussão internacional. Ele foi o dublador de Harry Potter na série de filmes e até J.K.Rowling, a criadora do jovem herói bruxo, lamentou a tragédia. Caio era policial por vocação e paixão.
       Para encerrar a crônica de absurdos, uma juíza foi agredida por policiais presos, irritados com o corte de mordomias no Batalhão Prisional de Benfica. A juíza foi defendida por outros PMs, desarmados, da sua escolta e que, por sua vez, foram atacados a pauladas. Afinal, que PM é essa em que convivem agressores e agredidos, assassinos e vítimas?
       Tão mal vista pela população por conta de pequenas falcatruas e grandes bandidagens cometidas por seus integrantes ao longo de décadas, ela é o alicerce da política de segurança instalada no Rio desde 2008. Quando foram criadas as Unidades de Polícia Pacificadora, um nome significativo, parecia que a limpeza nos quadros da PM e da Polícia Civil, com a expulsão dos maus elementos promovida pelo secretário José Mariano Beltrame, daria certo. Houve esperança de que o mantra dos cariocas “a PM não tem jeito” pudesse estar errado.
       A administração Beltrame fez mudanças na formação do policial, expulsou mais de mil e quinhentos policiais e atraiu gente que, em outros tempos, jamais se arriscaria a fazer parte da corporação. “Morreria feliz em combate”, respondia Caio quando a família insistia para que deixasse a PM. Ele acreditava que seu trabalho era proteger a sociedade e se orgulhava disso.
       Mas a impressão de que se está enxugando gelo voltou a se espalhar por uma parcela significativa da população a partir do desaparecimento de Amarildo, na Rocinha, em 2013, após ter sido detido por policiais da UPP. Será que a PM não tem jeito? O que fazer para que ela mude?
Claudio Beato, do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas, definiu a PM como uma caixa-preta. Diz que a sociedade sabe pouco sobre ela. “Acho simplista a tese de só culpar os maus policiais. O que falta é uma efetiva estrutura de controle. É preciso haver uma mudança institucional para que casos como o da Providência não voltem a ocorrer”, escreveu no GLOBO esta semana.
       Em agosto, uma pesquisa Datafolha, encomendada pelo Ministério da Justiça e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, revelou que a Polícia Militar do Rio é a mais corrupta do país. O estado tem mais vítimas de extorsão policial do que todos os demais da Região Sudeste somados. Um resultado estarrecedor.
       Apesar disso, o programa das UPPs tem muitos pontos positivos. A questão, como é gritada aos quatro ventos pelo próprio secretário de Segurança, é que a polícia não pode agir sozinha. Sem a participação de outros setores do Estado, a polícia tende a se tornar, ela própria, um problema. Sua tendência é usar o instrumento com que está mais habituada, a violência. E neste caso, não há programa social que dê jeito. Cada vez que uma barbárie como a do Morro da Providência acontece o trabalho de anos retrocede. E, o que é pior, há quem clame por mais violência, criando um círculo vicioso sem possibilidade de um final minimamente feliz.
       Uma das mais frequentes críticas à política de segurança é que o treinamento dos novos policiais é precário e que eles já saem da academia direto para áreas com grandes possibilidades de conflito. A crítica pode ser justa. A questão é que não há como parar tudo e recomeçar do zero.
       Os conflitos explodem a todo momento. Muitas vezes são consequências de questões que ainda são discutidas pela sociedade. Por exemplo, a descriminalização do consumo de drogas e o estatuto do desarmamento.
       Uma música dos Titãs diz “Polícia para quem precisa de polícia”. É uma boa ideia, mas que sociedade, no mundo atual, não precisa de polícia? O importante é que a sociedade defina e lute pelo tipo de polícia que quer.
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*Leia mais sobre o assunto:

domingo, 20 de setembro de 2015

Ponto final

                                            O enfático "não" do STF


Tesoura nas campanhas: Políticos precisarão se adequar
à nova realidade de recursos disponíveis nas eleições.
       Após um longo debate envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, com idas e vindas políticas, a maior instância judiciária do país decidiu, em julgamento na última quinta-feira, caracterizar como inconstitucionais as doações de empresas durante as campanhas eleitorais. A partir de agora, portanto, financiamentos do tipo estão proibidos, e qualquer tentativa de algum grupo político reverter as novas regras provavelmente não será bem-sucedida no Congresso, sob a justificativa de desrespeitar a Constituição Federal. Embora não esteja explícita uma proibição aos financiamentos privados nos seus artigos, outros princípios-base da Lei Maior do País, como democracia e  equidade, influenciaram os votos de 8 dos 11 juízes do STF.   
        A maioria esmagadora das últimas campanhas obteve maior parte de seus recursos por intermédio de doações de empresas que atuam em diversos setores, como o bancário, da construção civil até mesmo o alimentício. De acordo com uma reportagem do jornal "Estado de São Paulo", as 10 que mais doaram em 2014 distribuíram, independentemente de preferência político-partidária, cerca de R$ 160 milhões entre 360 dos 513 deputados eleitos por mais de 23 partidos.
       Na corrida presidencial os números são ainda maiores e, por que não, revoltantes: 95% dos R$ 350 milhões arrecadados pela campanha de reeleição de Dilma Rousseff, 87% dos R$ 227 milhões declarados pelos administradores da campanha de Aécio Neves e 87% dos R$ 44 milhões financiados para Marina Silva vieram de contribuições privadas, segundo o jornal "O Globo" e com base nas prestações de contas entregues pelos comites dos candidatos à Justica eleitoral.
        Esses valores estratosféricos, por si só, já seriam suficientes para o debate sobre maiores restrições. A falta de regras anteriormente ocasionou uma hiperinflação das candidaturas. Além disso é inegável a influência exercida pelo poder econômico nas decisões políticas e no voto da população.  Empresas, em geral, buscam retorno quando  "investem" em políticos. Os exemplos de fraudes, favorecimentos ilícitos em licitações e superfaturamentos de obras cometidos  por empreiteiras e desvendados pela operação Lava-Jato são apenas uma amostra das "recompensas" cobradas em troca de preciosos votos.  As eleições, muitas vezes, se transformam em um "vale-tudo" pelo poder, e quanto mais recursos - não importa de onde vêm - maiores as chances de uma campanha mais forte, melhor administrada e de vitória.
        A partir de 2016, as fontes de arrecadação legais serão as contribuições de, no máximo, 10% da renda anual de pessoas físicas e o dinheiro público do Fundo partidário, que foi expandido justamente prevendo o fim das doações privadas. Essa é uma das principais polêmicas da nova regra: quando é cogitado o uso de dinheiro público para as campanhas, muitas críticas surgem, evidentemente, entre a população, farta de pagar uma das maiores cargas tributárias do mundo e, dificilmente, ver o retorno esperado na qualidade de vida.  Ao eleitor, entretanto, é preciso ficar claro que o dinheiro até então destinado, nas eleições, pelas empresas era, sobretudo, fruto dos lucros obtidos com a compra de produtos e serviços pelos cidadãos.
       De qualquer forma, somos nós quem pagamos a conta da farra política. O fato do dinheiro ser público pode inibir a submissão  de muitos governos à influência politica das empresas, que não deveriam participar ativamente de eleições, cujo resultado é, em tese, reflexo apenas da vontade popular. Os votos antes conquistados através do dinheiro e da influência precisarão vir, agora, de um diálogo mais próximo com as demandas da população.
       Apesar da tendência de barateamento das campanhas, são inúmeras as ações a serem tomadas ainda com a finalidade de ser garantida uma maior transparência nas práticas eleitorais e um maior compromisso  com o bem-estar da população. Instituir limites mais severos de gastos em eleições e coibir as arrecadações não declaradas e, portanto, ilegais, das quais empresas, mesmo a partir de agora proibidas, podem participar ("caixa-dois") são as pautas que deveriam fazer parte de um debate permanente. O "não" do STF precisa ser o "sim" para o início de uma tão sonhada e, ao mesmo tempo, tão distante reforma política efetiva, que combata a corrupção e amplie poder de participação popular nas decisões políticas.


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                                                          Mattheus Reis