terça-feira, 25 de agosto de 2015

No caminho certo?

                    Nem tudo no Flamengo está "no azul".


Com o pé direito: Em sua reestreia pelo Flamengo,
 O. de Oliveira venceu o São Paulo por 2 a 1.
       O Flamengo começou o 2º turno do Campeonato Brasileiro de 2015 sob o comando de um novo técnico. Isso não é nada inédito no clube de maior torcida do mundo. Oswaldo de Oliveira voltou ao comando da equipe após 12 anos de sua primeira passagem e, de cara, enfrenta um dilema sobre o seu futuro a curto-prazo: conseguirá ele dar, enfim, estabilidade e qualidade a um elenco que oscila dentro de campo há pelo menos 3 anos ou será “mais um” dentre os muitos que, por pouco tempo, ocuparam o banco de reservas? O que o destino lhe reservará?
       Quando o assunto é planejamento financeiro, o Flamengo tem ocupado uma posição de protagonismo ultimamente, recebendo até elogios em uma reportagem do The New York Times. A tão exigida boa gestão é um tema sobre o qual a mídia esportiva há bastante tempo agenda, ou seja, debate. O corte de gastos e o cerco ao desperdício foram tratados como prioridade no rubro-negro carioca, a partir da vitória de Eduardo Bandeira de Mello nas eleições presidenciais em dezembro de 2012. Desde então, os últimos balanços financeiros divulgados estão "no azul": em 2014, foi o clube, na série A, com maior arrecadação (R$ 347 milhões de reais) e o único a reduzir a sua dívida, que gira em torno de R$ 698 milhões apesar da redução de R$ 58 milhões em comparação com 2013. No 1° semestre de 2015, o lucro já atinge a marca de R$ 36 milhões.
       No entanto, dentro das quatro linhas, o sucesso não se repete. É preciso ressaltar que uma reestruturação financeira, após anos de irresponsabilidades administrativas e fiscais, não se faz da noite para o dia, e o futebol acaba sendo afetado. Há 3 anos e meio o Flamengo não chega ao G-4 na classificação do Brasileirão, flerta com o rebaixamento. De 2000 para cá, 34 treinadores foram contratados; Oswaldo de Oliveira é o oitavo da gestão Bandeira de Mello, na presidência há 2 anos e meio. Um projeto consistente de conquistas a longo prazo, sob essas circunstâncias, é praticamente inviável.
       O futebol é a principal fonte de receita dos clubes. A partir de boas campanhas e títulos em competições nacionais e internacionais, o lucro de patrocínios, bilheteria e venda de produtos cresce. Por conta da sua história vitoriosa e de sua popularidade, a marca “Flamengo” é forte, mas é inegável que os gols dentro de campo resultariam em mais gols ainda nas contas.
       O projeto da "chapa azul", liderada por Bandeira de Mello, está em xeque por conta das inúmeras polêmicas e divergências na cúpula de futebol. Os interesses políticos diversos na diretoria levaram ao seu racha: muitos dos dirigentes que substituíram a turbulenta gestão de Patrícia Amorim já se desligaram e até mesmo anunciaram candidatura de oposição nas próximas eleições, marcadas para dezembro deste ano. Essa falta de consenso em torno de um interesse maior – o sucesso prolongado de um clube – não é uma realidade exclusiva do Flamengo; uma disputa por poder que relega ao segundo plano qualquer superávit financeiro.
       A austeridade imposta por essa gestão atual é um modelo pioneiro, e sua influência é tanta que inspirou as contrapartidas exigidas pela MP do futebol aos clubes em troca do refinanciamento de suas enormes dívidas com o governo federal. Entretanto, enquanto o futebol rubro-negro for administrado da forma pela qual tem sido, incorreta, sem continuidade e apoio a treinadores, a impressão é a de que, mesmo com lucros exorbitantes eles poderiam ser maiores ainda; a alegria de 40 milhões de torcedores, também.

                                                            Mattheus Reis



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Em busca de um legado




                                                      Hora de agir
      
Chega de esperar: Obama em anúncio de ambicioso
 plano para "limpar" a matriz energética americana.
       Ele está correndo contra o tempo. Enquanto o seu partido, o Democrata, e o opositor, Republicano, já se preparam para eleição presidencial do ano que vem, Obama mede esforços para deixar um legado minimamente concreto e duradouro para mais de 300 milhões de americanos a partir do momento em que não for mais o ocupante do salão oval da Casa Branca. Os últimos meses foram de avanços significativos tanto na política interna quanto externa; nem tudo saiu conforme o idealizado quando Obama escreveu seu nome da história como o primeiro presidente negro dos EUA; ainda há muito o que fazer.
       A crise financeira iniciada em 2008 foi um choque para as pretensões iniciais do então recém eleito presidente. O combate ao desemprego e a retomada do crescimento passaram a ser prioridades na maior economia do planeta durante os seus primeiros 4 anos de mandato. A partir de medidas inicialmente impopulares tomadas, a imagem do governo se deteriorou. Atualmente, no entanto, já são visíveis os indícios da retomada da economia americana mesmo que gradativamente: nos últimos 5 anos, foram criadas mais de 13 milhões de postos de trabalho no país.
       Outra promessa de campanha finalmente saiu do papel após longas batalhas políticas e judiciais: a Reforma da Saúde. Nos EUA, não existe um sistema de saúde pública integrado como o SUS brasileiro. Por conta disso os americanos são submetidos a pagar caro por planos de saúde ou arcar despesas de tratamento hospitalar do próprio bolso. Essa reforma, também conhecida como Obamacare, tem por intuito subsidiar os preços dos planos de cobertura médica para famílias cujas faixas de renda mensal estão entre as mais baixas. Mais de 20 milhões de pessoas já estão sendo beneficiadas.
       A legalização do casamento civil entre homossexuais em todos os estados americanos, a reaproximação diplomática com Cuba, o acordo de não-proliferação nuclear assinado conjuntamente ao Irã e o recente lançamento de um programa de redução das emissões de gases do efeito estufa são outros avanços mediados e desejados por Obama.
       Os passos dados até agora têm uma enorme complexidade e impacto na cultura local. As pesquisas de opinião mostram que esses efeitos, na sua maioria benéficos, não foram sentidos ainda, como um todo, já que apenas 43% aprovam a gestão de Obama, um percentual não tão elevado. Um novo jeito de governar - bem diferente do apresentado por presidentes anteriores e responsável por defender bandeiras como o meio ambiente, a diplomacia pacífica, os imigrantes hispânicos e o grupo LGBT - ainda enfrenta muitas oposições na classe política e na sociedade americanas.
       Mesmo enfrentando problemas como o crescimento da influência fundamentalista do Estado Islâmico e os comprometedores casos de espionagem a empresas e a governos empreendida por agências de segurança americanas, Obama, deixa um plataforma de boas ideias e propostas de continuidade para aquela que se apresenta com mais chances de ser a candidata de seu partido à sucessão, Hillary Clinton. 


Leia mais sobre o assunto:
http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,obamacare-ja-beneficia-20-milhoes---imp-,1714929
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/03/1609756-eleicao-presidencial-nos-eua-ja-domina-debate-nos-eua.shtml
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2015/07/17/interna_mundo,490800/aprovacao-de-obama-cai-apoio-segue-forte-entre-jovens-minorias-e-liberais.shtml


                                                              Mattheus Reis

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Contagem regressiva.

                                                         Vamos torcer!


Expectativa: abertura das Olímpiadas de Pequim,
 em 2008. Daqui a um ano será a nossa vez.
       Daqui a exatamente um ano, em 5 de agosto de 2016, os olhos do mundo se voltarão novamente para a cidade do Rio de Janeiro. Após sediar no ano passado a grande final da Copa do Mundo em julho de 2014, o Maracanã será palco principal do maior evento esportivo do planeta: os Jogos Olímpicos. Ciente da responsabilidade de sediar a competição pela primeira vez na América do Sul, a cidade  está definitivamente em obras, que causarão mudanças em questões como a mobilidade urbana e a rede hoteleira. Apesar disso, o planejamento e o legado são alvos de inúmeras críticas, concentradas, sobretudo, em relação à poluição na Baía de Guanabara e na Lagoa Rodrigo de Freitas.
       Conforme era o esperado, as despoluições da Baía e da Lagoa, prometidas quando a cidade se candidatou a sediar os jogos, dificilmente serão concluídas e se tornaram um grande problema para o Comitê Organizador dos Jogos. Os locais onde serão disputadas as provas de iatismo e remo em 2016 somente poderão ter sua biodiversidade recuperada após contínuos projetos de combate ao lançamento de esgoto e de resíduos sólidos nas águas e mananciais da região metropolitana; um esforço que pode levar 20 anos para ter seus primeiros resultados concretos vistos, conforme afirmou recentemente a ministra do meio-ambiente Izabella Teixeira.
       Apesar de a porcentagem de esgoto lançado in natura, ou seja sem nenhum tratamento, na Baía ter diminuído de 83% para 51% nos últimos 8 anos, segundo o governo do estado do Rio de Janeiro, inúmeros velejadores - motivados tanto por vantagens quanto pela saúde dos atletas - e a Federação Internacional de Iatismo apelaram aos comitês Olímpico Internacional e Organizador dos Jogos pela mudança do local das competições.
       Diante de tantos problemas pelos quais o Brasil enfrenta em termos de qualidade de serviços públicos e desigualdade social, os Jogos Olímpicos no Brasil acabam sendo vistos como algo "supérfluo". Quem nunca ouviu verdades do tipo "Os recursos poderiam ser destinados ao que realmente importa, como a educação e a saúde."?  É preciso destacar, no entanto, que, mesmo em tempos de ajuste fiscal e aperto nos gastos, os cidadãos brasileiros pagam uma das maiores quantidades de impostos do mundo. Não é preciso ser um renomado analista de finanças publicas para perceber a possibilidade de se conciliar demandas diversas, seja a de um megaevento ou a de desenvolvimento social e sustentável desde que os recursos sejam administrados de forma planejada, correta e honesta. De acordo com o Ministério Público Federal, perdemos por ano mais de 200 bilhões de reais por conta da falta de planejamento, da corrupção e do desperdício do poder público. A mais atualizada matriz de responsabilidades fiscais dos Jogos Olímpicos no Rio apontam investimentos de 38 bilhões de reais para o megaevento, valor custeado não só pelo poder público mas também pela iniciativa privada. Se existe algum vilão nessa história, não são simplesmente os Jogos Olímpicos.
       As Olimpíadas e o esporte, como um todo, trazem, em si, uma mensagem de superação, sendo um dos últimos elementos restantes de união e confraternização entre as nações do mundo. Além disso, eventos desse porte podem ser catalisadores de transformações sociais e urbanas. Barcelona, sede em 1992, é um exemplo do que pode-se dizer "antes e depois dos Jogos". Aos "trancos e barrancos", 'a cidade maravilhosa' e, agora, 'olímpica' tenta fazer o mesmo, sem sabermos, porém, se terá o mesmo sucesso.  
       No âmbito esportivo, o Comitê Olímpico Brasileiro espera colher bons resultados do pesado investimento feito a partir de 2012 com a finalidade de melhorar o rendimento de atletas, principalmente aqueles cujas modalidades praticadas não possuem tanta tradição no país e notórios resultados em competições internacionais. A partir da contratação de profissionais estrangeiros, do desenvolvimento da infraestrutura de treinamento e de bons resultados vistos nas recentes competições internacionais, quando modalidades como a canoagem conquistaram medalhas inéditas, o objetivo traçado de que o Brasil figure entre os 10 melhores países no quadro geral de medalhas pode vir a se concretizar, o que seria a sua melhor participação na história das Olimpíadas. Essa expectativa é, no entanto, apenas um detalhe diante da necessidade de uma vitória ainda maior.
       Os Jogos Olímpicos para o Brasil e para o Rio de Janeiro, mais precisamente, devem ser um fator  responsável por acelerar mudanças na qualidade de vida da cidade, provar a capacidade do país em organizar grandes eventos e, acima de tudo, inserir de vez nos debates políticos e públicos uma cultura esportiva, que zele tanto pela saúde e bem-estar da população quanto pela inclusão social e formação de novos atletas. Diante das dificuldades enfrentadas por muitos jovens, eles já são campeões na vida e poderão ser, quem sabe, vitoriosos também nos campos, nas quadras ou tatames. Os brasileiros, mesmo que em cima da hora, como aconteceu na Copa do Mundo, farão a sua parte e torcerão pelos atletas do país a partir de 5 de agosto de 2016. Vamos torcer ainda mais para que a cidade do Rio de Janeiro, infelizmente uma das mais violentas do mundo, comece a ser, daqui a um ano, maravilhosa de fato.

*Leia mais sobre o assunto:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/07/estudo-analisa-agua-no-rio-e-diz-que-ha-risco-para-atletas-nas-olimpiadas.html   
http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/barcelona-20-anos-depois-a-olimpiada-e-uma-nova-cidade/
http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/despoluicao-da-baia-de-guanabara-pode-demorar-20-anos-diz-ministra-do-meio-ambiente-12698824


                                                                Mattheus Reis



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Bonito de se ver!

                                                      Atletas de ouro.

Podium brasileiro: V. Nascimento, M. Silva e R. Silva,
 medalhistas nos 50 metros nado livre em Toronto.
       A delegação paralímpica do Brasil deu mais um exemplo de superação ao bater o recorde de medalhas do país em Jogos Parapan-americanos. Na edição deste ano, em Toronto (CAN) e, que terminou no último sábado, foram 257 medalhas conquistadas (109 de ouro, 74 de prata e outras 74 de bronze), quantidade mais que suficiente para colocar o Brasil no primeiro lugar no quadro geral pela terceira vez consecutiva. O sorriso no rosto de praticamente todos os atletas, medalhistas ou não, é uma vitória diante de inúmeras dificuldades do dia-a-dia.
       O primeiro efeito positivo desse resultado espetacular é um grande aumento na verba pública repassada ao Comitê Paralímpico Brasileiro, que passará de R$ 39 milhões para aproximadamente R$ 130 milhões anuais; uma justa recompensa para aqueles que representam muito bem o país em competições internacionais de grande porte apesar dos poucos incentivos para a maior parte dos atletas. Em Jogos Olímpicos, a evolução é visível: nas últimas 5 edições, o Brasil saltou da 37ª posição, em Atlanta-1996, para a 7ª, em Londres-2012, no quadro geral de medalhas. 
       Existe, no entanto, um longo caminho a ser percorrido. Embora programas, como o Bolsa-atleta, e a Lei de Incentivo ao Esporte tenham contribuído, recentemente, para acelerar a profissionalização do esporte paralímpico no Brasil, há uma demanda crescente pela expansão dos subsídios, melhora da infraestrutura de treinamento, assim como um apelo por maior visibilidade na mídia, sobretudo em canais esportivos a cabo, que, em sua maioria, não transmitem regularmente as competições. Alguns atletas de elite, como o nadador multicampeão Daniel Dias, conseguiram, através de medalhas e recordes, patrocinadores públicos e privados, mas isso não se aplica a todos os competidores, que precisam, muitas vezes, conciliar uma desgastante jornada dupla de trabalho e treinamentos.
       As dificuldades enfrentadas por eles no esporte se somam às do dia-a-dia. As cidades brasileiras cresceram, nas últimas décadas, sem um planejamento que acompanhasse de forma eficiente as mudanças demográficas e questões como a acessibilidade. Por conta disso, são visíveis os problemas denunciados por deficientes sobre a dificuldade de se locomoverem em calçadas, prédios e meios de transporte. Mesmo quem não é atleta precisa encarar diariamente uma maratona com obstáculos chamados "buracos", "escadas" e "ônibus não-adaptados".
       O Rio de Janeiro recebeu do Comitê Olímpico Internacional a prazerosa, mas ao mesmo tempo desafiante, missão de sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Essa é uma oportunidade indispensável para, em tão pouco tempo, catalisar transformações urbanas e na gestão do esporte que, provavelmente, levariam muito mais tempo caso um evento desse porte não acontecesse por aqui.   
      O cenário econômico instável pelo qual atravessa o país não deixa de ser um percalço, mas a continuidade de uma política esportiva inclusiva e de excelência assim como o aperfeiçoamento das condições de acessibilidade para deficientes são fundamentais para termos, no futuro, a percepção de quão importante foram os Jogos não só para a "Cidade Maravilhosa" mas também para o Brasil. A sanção do "Estatuto da pessoa com deficiência" pela presidente Dilma Rousseff, em julho, pode ser considerada um avanço já que a legislação nacional não tinha um documento tão específico sobre o tema. No entanto, a excelência não pode ser apenas algo sonhado pelos competidores: o governo, em suas esferas de poder, precisa fazer com que o Estatuto seja cumprido e reconhecido devidamente; um reconhecimento já conquistado pelos atletas paralímpicos do Brasil há muito tempo e com quem temos uma dívida.
      
* Leia mais sobre o assunto       


http://espn.uol.com.br/noticia/536242_apos-otimo-parapan-comite-paralimpico-brasileiro-tera-mega-aumento-de-verba
http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/07/dilma-sanciona-estatuto-da-pessoa-com-deficiencia.html

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bandeira branca

                                  Os aplausos de Mandela




      

Gesto histórico: Obama e Castro se
cumprimentam  no funeral de Mandela.
       Aquele 10 de dezembro de 2013, dia chuvoso e triste na cidade de Johannesburgo, na África do Sul, por conta do funeral do grande líder e Nobel da paz Nelson Mandela, proporcionou, por outro lado, uma cena que despertou, na época, muita curiosidade e expectativa no mundo; uma cena cujo significado passamos a compreender e celebrar há pouco tempo: depois de décadas marcadas por acusações e ódio mútuos, Cuba e EUA se abraçaram através de um aperto de mão entre Barack Obama e Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e, atualmente, presidente da ilha. Após uma série de rodadas de negociações, foi realizado hoje o primeiro evento concreto de uma reaproximação diplomática: a abertura das embaixadas americana e cubana nos dois países.
      A retomada de relações diplomáticas entre Cuba e EUA a partir do final do ano passado, mediada por importantes figuras como o Papa Francisco, é o início da queda de mais um resquício da Guerra Fria. Devido ao embargo econômico imposto pelos EUA e seus aliados em 1961, Cuba buscou suporte econômico na extinta União Soviética através de alinhamento político e ideológico, além da assinatura de acordos comerciais. Com o colapso da União Soviética e de suas áreas de influência nos anos 1990, o enclave socialista na América perdeu seu pilar de sustentação frente ao bloqueio americano. Desde então, a população de local convive mais intensamente com racionamentos de utensílios vitais, como alimentos.
       A partir da ascensão de Raúl Castro ao poder, proporcionada pela saúde debilitada de seu irmão mais velho, uma nova política de abertura gradual da economia - e que desembocou na reaproximação com o governo americano - foi posta em prática. Diante da crise econômica e da pressão interna e da comunidade internacional contra o autoritarismo no país, o governo cubano apontava como estratégia culpar a manutenção do embargo pela penúria, o que não deixa de ser, pelo menos em parte, verdadeiro.
       Obama, por sua vez, não terá tempo suficiente para finalizar uma aproximação plena. Com aproximadamente 1 ano e meio de mandato pela frente, dificilmente conseguirá cumprir as etapas mais importantes e, ao mesmo tempo, agudas das negociações: o debate sobre a desativação da prisão de Guantánamo e o tão complexo fim do embargo. O longo caminho a ser percorrido exige uma reconciliação contínua, progressiva, e, para isso, uma vitória do partido Democrata nas eleições presidenciais de 2016 e, consequentemente, a continuidade do legado de Obama parecem ser o único caminho viável já que a maior parte do partido opositor, o Republicano, se opõe a qualquer diálogo sobre o tema.
       Apesar dos poucos passos dados por enquanto, eles são animadores. Segundo o instituto de pesquisas Pew Research, 63% dos americanos aprovam a reaproximação. Esse dado comprova mais uma vitória para a diplomacia de Obama, que não gosta de resolver seus problemas e desavenças com uma arma nas mãos; uma grande mudança na forma como o regime político dos Castro dialoga e vê o mundo. Os desafios são mútuos e gigantes. Os EUA precisam promover uma abertura que não interfira na soberania de Cuba, não repetindo os exemplos de episódios como o da Emenda Platt e o da invasão à Baía dos porcos no século passado. Cuba, por sua vez, precisa compreender as marcas e os impactos negativos de uma estrutura de governança pautada por violações aos direitos humanos e censura prévia apesar dos invejáveis níveis de serviços públicos, como a saúde e a educação.
       Em meio à comoção gerada pela perda de um exemplo para a humanidade em 2013, um gesto simbolizou tudo o que Mandela sempre desejou e lutou: a união sem distinções entre povos. Se Mandela não pôde assistir ao vivo àquele aperto de mãos, ele aplaude, lá do alto, o que foi construído hoje. Um tijolo por vez. No dia dos amigos, EUA e Cuba mostraram pela primeira vez depois de 54 anos que, no mínimo, não desejam ser eternos inimigos. 


*Leia mais sobre o assunto!
http://noticias.terra.com.br/mundo/eua-e-cuba-retomam-relacoes-diplomaticas-veja-o-que-ja-mudou,91a47edd71de3790937a3f98cd124325w583RCRD.html
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141217_cuba_eua_reaproximacao_rm




                                                      Mattheus Reis

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Um ano depois...

                            "Pátria de chuteiras, mostra a tua cara!"



Nocauteado: A falta de qualidade e de confiança
 ainda afetam o futebol brasileiro pós-7X1.
       O dia 8 de julho de 2014 começou cercado por otimismo e confiança, porém terminou de uma forma melancólica em algo para esquecer e, paradoxalmente, para ser lembrado. Estávamos vivendo o clima de uma semifinal de Copa do Mundo. Desde 2002, quando a seleção brasileira conquistou o pentacampeonato mundial de futebol, não estávamos tão perto de colocar mais uma estrela no peito: nas últimas duas Copas, em 2006 e em 2010, fomos eliminados nas quartas-de-final. Todos nós sabemos o que aconteceu depois de 90 minutos daquele jogo em Belo Horizonte. No entanto, nem todos atentaram-se aos indícios e lições que o 7 a 1 nos mostrou.
       Apesar de disputar a Copa América em junho deste ano, no Chile, desfalcada de experientes jogadores, como Marcelo, Luiz Gustavo e Oscar, a atuação muito abaixo do que o ainda país mais vitorioso da história do futebol já demonstrou em outras ocasiões cada vez mais transmite a sensação de que não somos, neste momento, os "donos da bola". Estamos no futebol e em outros aspectos em baixa, mas isso não significa que tanto no futebol quanto no Brasil, como um todo, não exista a possibilidade de mudanças profundas e benéficas. 
       A seleção brasileira é somente o topo da pirâmide de uma restruturação urgente. A gestão dos clubes é o início do despontar de craques. São eles os formadores de atletas e precisam ter condições financeiras saudáveis para que o futebol brasileiro saia do "coma". O talento existe. Muitos craques em potencial, porém, acabam não correspondendo às expectativas criadas por conta de transferências precoces para clubes europeus com o intuito de sanar dívidas de seus clubes formadores e, em alguns casos, encher os bolsos indevidamente de dirigentes e empresários.
     Esse "assédio irresistível" acaba sendo responsável por comprometer o amadurecimento técnico de muitos jogadores.
       Visando combater as deficiências do futebol dentro e fora das quatro linhas, a Câmara dos Deputados aprovou na última terça-feira a Medida Provisória Profut, um conjunto de normas voltadas para a modernização das práticas administrativas dos clubes, dentre elas punições rígidas para aqueles que não zelarem pela redução de dívidas fiscais, limites de gastos com futebol (cerca de 80% do orçamento anual) e incentivo a investimentos nas categorias de base e no futebol feminino, vice-campeão olímpico em 2004 e em 2008, mas que carece de apoio.
       Tal regulamentação, inédita no Brasil e que será encaminhada para votação no Senado Federal na próxima semana, pode ser o início de uma mudança profunda e complexa que abrange também o combate a práticas ilícitas na Confederação Brasileira de Futebol e em federações estaduais, intensificação da segurança em estádios, alterações no calendário e nos horários dos jogos além de melhor qualificação de treinadores e professionais da área esportiva. Essas deficiências já existem há bastante tempo, principalmente fora das regiões sul e sudeste. No entanto, nas últimas décadas, sucessivas gerações de craques atenuaram os problemas estruturais do futebol. De Garrincha a Ronaldinho Gaúcho nossa "amarelinha" foi muito bem representada. Quando, admite-se, a safra atual está longe se ser excepcional, mesmo com a liderança técnica de Neymar, infraestrutura e uma administração séria e competente são fundamentais para elevar a competitividade do nosso futebol em relação aos adversários a serem enfrentados nos torneios internacionais.
       Foi a partir de um árduo trabalho de desenvolvimento profundo do seu futebol que a Alemanha colheu o tetra mundial no Maracanã. A fórmula, no entanto, não é pronta: é preciso conhecer os exemplos bem-sucedidos e adaptá-los à cultura, ao estilo de jogo e à condição socioeconômica do país. Conforme afirma o ditado popular "Há males que vêm para o bem", a triste derrota por 7 a 1 poder ser o início de uma retomada do país do futebol aos seus anos gloriosos. O momento é de criação de uma força-tarefa em prol do esporte e que concilie interesses comerciais de veículos de comunicação e reivindicações de atletas, clubes e torcedores. Não precisamos ressuscitar o futebol brasileiro: ele nunca morreu, mas, por conta do abandono, incompetência e outras deficiências, está com vergonha de aparecer novamente para o mundo.


                                                        Mattheus Reis

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Inovação no mercado de trabalho

                                                          O fator "Y"


       Qual é o seu grande objetivo profissional? Se você está inserido na faixa dos 20 a 30 anos de idade e está ingressando no mercado, provavelmente em sua lista de prioridades está a busca pela felicidade no emprego, e não apenas um bom salário, independentemente da carreira que você deseja seguir. Essa é uma das características mais marcantes da chamada “Geração Y”, da qual fazem parte jovens nascidos entre as décadas de 1980 e 1990 e tida como revolucionária ao exigir, mesmo que indiretamente, mudanças nas relações de trabalho.
       As demandas do mercado de trabalho, na atualidade, dão cada vez mais valor à criatividade, à proatividade e à pluralidade de conhecimentos e tarefas de um candidato a uma vaga. Não é à toa, portanto, que a Geração Y - inserida, em sua maior parte, em um período de intensa inovação tecnológica e de acesso rápido a múltiplas informações e perspectivas sobre diversos assuntos do cotidiano - está cada vez mais presente na força de trabalho do Brasil e do mundo, como um todo, já que se enquadra nos principais modelos de profissionais desejados pelas empresas, sobretudo aquelas relacionadas à indústria criativa, tecnológica e da informação, como Google, Facebook e Intel.
       A questão salarial não deixou de ser considerada, embora outros interesses apontados por essa geração mergulhada no mundo tecnológico, como a sensação de contribuição ao crescimento produtivo da empresa, valorização por chefes e superiores além do bem-estar ao exercer a profissão estejam ganhando força.
       Sabendo da necessidade de acompanhar as transformações nas relações de trabalho, algumas empresas correm para se adequar e criar um agradável ambiente de trabalho com o objetivo de atrair os “exigentes” profissionais da Geração Y. Muitas delas investem na flexibilização de horários, principalmente àqueles que têm filhos pequenos, espaços de lazer, convênios e descontos para cursos de aprimoramento, e atividades físicas, como yoga e pilates.
       Tal mudança de paradigma, porém, ainda não é regra. Poucos setores da economia e empresas de pequeno e médio porte já empregam essa filosofia. Expandi-la para setores além da tecnologia e da publicidade, ou seja, para indústria pesada, com muitos funcionários, é desafiante, mas pode render frutos em um futuro não tão distante. No caso específico do Brasil, aponta a consultoria de recursos humanos Hays Recruting Experts Worldwide, é preciso incluir empresas maiores como também outras regiões do país: apenas o sudeste tem um percentual representativo da Geração Y ocupando os postos de trabalho disponíveis (43%).
       Existe praticamente um consenso entre especialistas em gestão, consultores de recursos humanos e psicólogos que trabalhar com satisfação e qualidade de vida garante maior produtividade e, consequentemente, impulsiona a economia. A Geração Y, apesar de ser criticada muitas vezes injustamente pela dispersão e ansiedade, é importante, nesse contexto, por ter iniciado uma modificação no ambiente, até antes, rígido das empresas e por estimular o bem-estar na carreira tanto entre as gerações anteriores de trabalhadores, como a “X”, quanto àquelas que ainda virão. Promover bem-estar aos seus funcionários pode ser inicialmente um gasto para empreendedores embora seja convertido mais rápido do que se espera em investimento, e bastante rentável.




OBS: As empresas mencionadas no texto são apenas exemplificações. Não há qualquer vínculo de publicidade entre tais empresas e o administrador do blog.


*Leia mais sobre o assunto:
http://exame.abril.com.br/topicos/geracao-y
http://redeglobo.globo.com/como-sera/videos/t/edicoes/v/o-intercambio-de-experiencias-entre-as-diferentes-geracoes-no-trabalho/3930856/


                                                            Mattheus Reis